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Discos para descobrir em casa – ‘Mágico’, Alceu Valença, 1984

por Administrador / terça-feira, 05 maio 2020 / Publicado em Cultura

Capa do álbum 'Mágico', de Alceu Valença Carlos Horcades ♪ DISCOS PARA DESCOBRIR EM CASA – Mágico, Alceu Valença, 1984 ♪ Pernambucano de São Bento do Una (PE), terra interiorana onde nasceu em 1º de julho de 1946, Alceu Valença se mudou para a cidade do Rio de Janeiro (RJ) em 1970, no início na corrente migratória que deslocou iniciantes artistas nordestinos para o sudeste do Brasil em busca de visibilidade nacional. Cantor, compositor e músico que contribuiu decisivamente na década de 1970 para a eletrificação dos ritmos nordestinos, amalgamados com a batida do rock, Alceu Valença precisou esperar dez anos na embolada do tempo para obter efetivo sucesso popular a partir de 1980. Décimo álbum da discografia de Alceu, Mágico propagou a densa balada Solidão (Alceu Valença, 1984), mas, a rigor, diminuiu a intensidade do fluxo do sucesso tardio do cantor ao ser lançado em 1984 sem deixar de reforçar a assinatura singular do artista. Essa assinatura começou a ser delineada ao longo dos anos 1970, década em que o cantador participou de festivais, gravou disco com Geraldo Azevedo (LP recusado pela Philips e editado pela Copacabana em 1972) e, em carreira solo, lançou álbuns arrojados como Molhado de suor (1974), o posteriormente cultuado Vivo! (1976) e Espelho cristalino (1977). Desiludido com a moderada repercussão desses álbuns, o artista partiu para o autoexílio na França. Em Paris, em 1979, gravou o álbum Saudade de Pernambuco – disco dado como perdido até ser encontrado e lançado discretamente em 1998 – e compôs o coco Coração bobo. Nome do álbum lançado por Alceu em 1980 na volta ao Brasil (quando o cantor foi contratado pela Ariola, gravadora de origem alemã então recém-instalada no país), Coração bobo bateu forte nas paradas e fez a massa brasileira prestar atenção no som deste artista de obra influenciada pelo canto dos aboiadores, violeiros e emboladores. Alceu aproveitou a favorável onda mercadológica e, se sentindo renovado e inspirado, ampliou a obra e o sucesso com os álbuns Cinco sentidos (1981), Cavalo de pau (1982) e Anjo avesso (1983). Cavalo de pau, em especial, representou pico de popularidade na trajetória de Alceu com os retumbantes hits Tropicana (Alceu Valença e Vicente Barreto, 1982) e Como dois animais (Alceu Valença, 1982). Anjo avesso manteve o pique por conta de Anunciação (Alceu Valença, 1983), música desde então obrigatória nos shows de Alceu, nos quais é saudada assim que a banda reproduz o prefixo do arranjo da gravação original. O sucesso do disco Anjo avesso e em especial da música Anunciação motivou o executivo Cor Van Dyke – então presidente da Polygram, gravadora que, a partir de 1984, encampou o acervo e o elenco da Ariola – a propor a Alceu que gravasse o próximo álbum na Holanda. Esse álbum foi Mágico, produzido pelo guitarrista Paulo Rafael – sob a direção artística de Marco Mazzola – e editado via Barclay, selo vinculado à Polygram. Entusiasmado com a proposta para gravar disco na Holanda, até porque acabara de compor com o parceiro João Fernando (antes do convite) a canção Moinhos, em que vislumbrara os moinhos da Holanda e os coqueiros de Olinda (PE) na mesma paisagem poética, Alceu partiu para Hilversum, cidade holandesa em que, de 30 de julho a 25 de agosto, gravou o álbum Mágico no Wisseloord Studios. “Meu repente é brasileiro / E a pitada de estrangeiro / Eu boto pra te envenenar”, ressaltou o cantor, duas vezes, na introdução de Que grilo que dá (Rock de repente). Da lavra de Alceu, esse repente roqueiro foi uma das nove músicas que compuseram o repertório quase inteiramente autoral do álbum Mágico. A exceção foi A menina dos meus olhos (1983), composição do primo Bubuska Valença, lançada pelo autor no ano anterior e regravada por Alceu em Mágico com o toque de Zé da Flauta em evocação dos pífanos de Caruaru (PE). A rigor, a “pitada de estrangeiro” mencionada por Alceu na introdução do rock repentista foi diluída no álbum Mágico pela forte brasilidade do som elétrico do artista. Essa brasilidade vestiu o agalopado martelo Casaca de couro (Alceu Valença), sintetizada na faixa no toque da percussão de Firmino. Rajada de vento (Zé da Flauta e Alceu Valença) também soprou forte, enfrentando a corrente tecnopop roqueira produzida pela fricção entre a guitarra-furacão de Paulo Rafael, o baixo de Jorge Degas e a bateria de Jurim Moreira. Nem os toques do sintetizadores pilotados por Márcio Miranda esmaeceu o tom de Dia branco, canção da lavra solitária de Alceu, homônima do sucesso de Geraldo Azevedo. A influência dos cantadores reverberou na vocalização árida do Maracatu colonial, composto sem letra. Como hábil ilusionista, Alceu embolou ritmos no álbum Mágico no tempo agitado que sempre pautou a obra do artista. Cambalhotas (Alceu Valença) abriu o disco como se fosse rock e depois deu a impressão de ser samba sem ser nem uma coisa nem outra. Nem embolada. Nem samba-rock. Era Alceu Valença, em rota que o levou à Holanda, país que tentou colonizar o povo pernambucano em invasões dos territórios de Recife (PE) e Olinda (PE) entre 1630 e 1654. Três séculos depois, foi a vez de nativo de São Bento do Una (PE), de visão contemporânea e sotaque universal, ir para a Holanda demarcar o território musical brasileiro na gravação de Mágico, disco feito sem truques. A única mágica de Alceu Valença neste álbum de 1984 foi mostrar que, independentemente de ter (ou não) o massivo apoio popular, o artista sempre pulsou firme com cancioneiro alimentado pela força elétrica desse alquimista embolador de ritmos.

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