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Aldir Blanc deixa obra com João Bosco que ‘caiu como viaduto’ sobre a ditadura dos anos 1970

por Administrador / terça-feira, 05 maio 2020 / Publicado em Cultura

♪ MEMÓRIA – Talvez tenha sido mero capricho do destino ou trapaça da sorte, mas o fato de o elo profissional de João Bosco com Aldir Blanc (1946 – 2020) – fortalecido ao longo da década de 1970 – ter começado a afrouxar justamente em meados dos anos 1980 revela muito sobre a natureza combativa da parceria do compositor mineiro com o letrista carioca, dissolvida em 1986 e retomada em 2005 sem a mesma repercussão popular. Compositores que formaram uma das duplas fundamentais da MPB dos anos 1970, João Bosco e Aldir Blanc construíram obra que “caiu como um viaduto” sobre a ditadura brasileira. Ruída a ditadura, em 1985, foi como se não houvesse mais razão de ser para essa parceria que se aliou às lutas inglórias do povo que sobrevive na pátria nada gentil e tampouco materna. Feita no verso inicial da canção O bêbado e a equilibrista (1979), hino da anistia vinda com a abertura iniciada em 1979 de forma “lenta, gradual e segura”, a alusão à queda do viaduto Paulo de Frontin, ocorrida em 1971 na cidade do Rio de Janeiro (RJ), foi somente uma prova da engenhosidade de Aldir Blanc na escrita de letras que, muitas vezes, desafiaram a moral vigente no Brasil sombrio dos anos 1970. Encerrada melancolicamente em 1986 com a composição do samba João do Pulo, gravado por Bosco no álbum Cabeça de nego (1986), a fase inicial e áurea da parceria de Aldir Blanc e João Bosco jamais fugiu à luta em defesa da liberdade de expressão e contra toda forma de opressão. Arquitetada com inquebrável sintonia entre ritmo e versos, a obra da dupla foi artilharia pesada de exército musical em que as armas eram letras escritas com metáforas que deram o recado que precisava ser dado na época. Vitor Martins, letrista das composições de Ivan Lins, também foi soldado valente nesse exército em que Aldir Blanc sobressaiu com versos corrosivos, alvos certeiros nos tiranos que ignoravam a fome que motivava O ronco da cuíca (1976), samba que exemplificou a verve politizada da dupla de compositores. Se O cavaleiro e os moinhos (1976) denunciou o açoite noturno, com crença na “existência dourada do sol”, O mestre-sala dos mares (1974) exaltou o destemido almirante negro que insurgiu contra a opressão. “Meu peito é do contra”, sintetizou o poeta no verso do samba Plataforma (1977). Da trincheira carioca, Aldir disparou Tiro de misericórdia (1977), acertando premonitoriamente na violência que dominaria as comunidades da cidade partida que retratou com lirismo que jamais temeu a feiura dos botequins imundos mencionados na letra de Bandalhismo (1980). Na guerra contra a ditadura, Aldir sempre tomou partido do povo brasileiro. Já nas cotidianas batalhadas conjugais, assuntos de sambas como Incompatibilidade de gênios (1976) e A nível de… (1982), o cronista poeta ficou do lado da espirituosidade com que retratou sem piedade a alma humana. Em qualquer trincheira e com qualquer parceiro (depois de Bosco, viriam Guinga e Moacyr Luz, para citar somente os dois mais frequentes), Aldir Blanc sempre situou a escrita fina do letrista bamba do lado certo da história.

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