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Discos para descobrir em casa – ‘Arranha-céu’, Zé Renato, 1994

por Administrador / segunda-feira, 01 junho 2020 / Publicado em Cultura

Capa do álbum 'Arranha-céu', de Zé Renato Nana Moraes ♪ DISCOS PARA DESCOBRIR EM CASA – Arranha-céu, Zé Renato, 1994 ♪ É simbólico que, na capa do álbum Arranha-céu, Zé Renato apareça à frente de um microfone na foto clicada por Nana Moraes em estúdio de gravação. Quarto álbum da discografia solo de José Renato Botelho Moschkovich, artista de origem capixaba e criação carioca nascido em abril de 1956, Arranha-céu foi disco de intérprete. Foi, mais especificamente, o tributo fonográfico de um cantor a outro cantor. O subtítulo do álbum lançado em 1994 pela gravadora Velas – Sobre as músicas e interpretações de Sylvio Caldas – já explicitou as boas intenções do cantor, compositor e violonista projetado nacionalmente em 1979 como um dos vocalistas do quarteto Boca Livre, formado em 1978. Entre idas e vindas, o grupo Boca Livre permanece em cena há 42 anos. Nos intervalos da agenda do quarteto, Zé Renato pavimentou respeitada carreira solo em que vem alternando vigorosos álbuns autorais – casos sobretudo de Cabô (1999) e do recente Bebedouro (2018) – com discos de intérprete em que o foco principal residiu no canto afinado do artista. Dono de emissão límpida, Zé Renato se confirmou um dos grandes cantores do Brasil justamente com Arranha-céu, disco gravado em julho de 1992, dois anos antes do lançamento, com produção e direção musical do próprio Zé Renato. Como sugeriu o subtítulo do disco, Zé Renato ofereceu visão particular do repertório do cantor e compositor carioca Silvio Narciso de Figueiredo Caldas (23 de maio de 1908 – 3 de fevereiro de 1988), uma das vozes sobressalentes da seminal música brasileira dos anos 1930, 1940 e 1950. Além da excelência vocal de Zé Renato, da beleza perene das 12 músicas selecionadas para o repertório e das soluções elegantes dos arranjos, Arranha-céu se elevou na discografia nacional pelo contraste entre o estilo grandiloquente de Silvio Caldas e o tom depurado do canto de Zé Renato. Mesmo sem as ousadias estilísticas de Orlando Silva (1915 – 1978) e sem o poder aglutinador de multidões de Francisco Alves (1898 – 1952), cantores contemporâneos alçados à fama na mesma era musical, o Caboclinho querido – um dos epítetos atribuídos a Caldas – marcou época, inclusive por ter sido também inspirado compositor, geralmente em parceria com o compositor carioca Orestes Barbosa (1893 – 1966). Como autor e/ou intérprete, Caldas deu voz a um fino repertório de emoções purificadas por Zé Renato em Arranha-céu. Intérprete apegado às tradições vocais do bel canto, Caldas registrou sambas, valsas e canções ao modo da época, muitas vezes em tom seresteiro. Zé Renato filtrou o cancioneiro do colega antecessor pela estética do canto mais cool sem jamais diluir o sentimento entranhado nas letras das composições. Em clima de serenata moderna, feita com o toque do violão de Marco Pereira, Zé Renato soube reverberar, por exemplo, toda a melancolia de Maringá (Joubert de Carvalho, 1931), canção abordada por Caldas em 1957 com tal propriedade que conseguiu associar a composição ao próprio nome, 16 anos após a gravação original do cantor paulista Gastão Formenti (1984 – 1974). Efeito de dores de amores expiadas em letras de música, a tristeza já se fez senhora na abertura do disco quando Zé Renato cantou, a capella, toda a primeira estrofe da música-título Arranha-céu (1977) – exemplo da afinação da parceria de Caldas com Orestes Barbosa – antes da entrada do acordeom de Cristovão Bastos a partir da segunda estrofe. Entre canções do amor demais, como Serenata do adeus (Vinicius de Moraes, 1958) e a valsa Quase que eu disse (Silvio Caldas e Orestes Barbosa, 1935), o álbum Arranha-céu caiu bem nos sambas associados à voz de Caldas. Samba de Ary Barroso (1903 – 1964) que se tornou o primeiro sucesso de Caldas ao ser lançado pelo cantor em disco de 1931, Faceira ganhou o devido dengo no registro de Zé Renato. Contudo, no terreiro do samba, nada surpreendeu mais em Arranha-céu do que a gravação de Minha palhoça (J. Cascata, 1935), samba de breque que Zé Renato dividiu com João Bosco em gravação singular feita no tom minimalista do álbum. E dividir, no caso, significou também brincar com o ritmo do samba, revivido com o violão de Bosco e a percussão do próprio Zé Renato. Imune aos efeitos do tempo, a beleza inebriante de composições como a valsa Se tudo soubesses (Georges Moran e Cristóvão de Alencar, 1941) – cujo lirismo melancólico foi sublinhado pelas cordas orquestradas pelo pianista Cristovão Bastos – e o fox-canção Mulher (Custódio Mesquita e Sady Cabral, 1940) pairou acima de estéticas e contribuiu para que o canto de Zé Renato chegasse aos céus neste disco irretocável. Em Viva meu samba (Billy Blanco, 1957), Zé Renato fez da tristeza um Carnaval de beleza que realçou o telecoteco deste samba lançado por Caldas. Dois outros dois sambas, Arrependimento (Silvio Caldas e Cristóvão de Alencar, 1935) e Como os rios que correm pro mar (Custódio Mesquita e Evaldo Ruy, 1944), reforçaram o repertório de Arranha-céu, álbum encerrado com a joia de maior quilate poético entre as pérolas do repertório autoral de Caldas, Chão de estrelas (Silvio Caldas e Orestes Barbosa, 1937), uma das mais belas páginas da música brasileira em todos os tempos. Ao dar voz a essa canção de tom seresteiro somente com o toque da guitarra de Victor Biglione, Zé Renato mais uma vez se elevou como intérprete e, reapresentando com respeito e sem subserviência o magistral repertório de Silvio Caldas, subiu definitivamente ao pódio reservado aos grandes cantores do Brasil.

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