Capa de 'Bem bom', álbum de 1985 em que Gal Costa lançou 'Acende o crepúsculo', rock de Marina Lima e Antonio Cicero Milton Montenegro e Márcia Ramalho ♪ MÚSICAS PARA DESCOBRIR EM CASA – Acende o crepúsculo (Marina Lima e Antonio Cicero, 1985) com Gal Costa ♪ Quando Gal Costa apresentou o rock Acende o crepúsculo entre as 11 músicas do álbum Bem bom, em 1985, a cantora baiana se reconectou com a obra cosmopolita de Marina Lima, compositora de origem piauiense e alma carioca que havia sido lançada no mercado fonográfico há oito anos na voz da própria Gal. Sim, coube a Gal a proeza de apresentar em disco, pela primeira vez, uma música de Marina Lima. Foi Meu doce amor, parceria de Marina com Duda Machado gravada por Gal em Caras e bocas (1977), álbum de vibe roqueira. A história poderia ter sido diferente se Elis Regina (1945 – 1982) tivesse levado em consideração o entusiasmo com que o produtor Marco Mazzola lhe falava da então desconhecida Marina. Ou se a censura tivesse liberado a inclusão de Alma caiada (Marina Lima e Antonio Cicero, 1979) no álbum Pássaro proibido (1976), de Maria Bethânia. O rock Acende o crepúsculo foi a segunda das três músicas de Marina gravada por Gal ao longo de 55 anos de carreira fonográfica (a terceira, Eu acredito, foi apresentada em 1990 no álbum Plural). Parceria de Marina Lima com o irmão poeta Antonio Cicero, nunca incluída pela artista na própria discografia, Acende o crepúsculo é rock bem bom. Em 1985, Marina já vivia o início da fase áurea como cantora e produzia com tal intensidade que se deu ao luxo de nunca ter gravado Acende o crepúsculo (e, curiosamente, nenhuma das duas outras músicas lançadas por Gal). Produzida e arranjada pelo tecladista Ricardo Cristaldi, a boa gravação de Gal resultou fiel ao espírito musical da década de 1980. A faixa tem teclados, mas o som das guitarras – a de Toni Costa e a solada por Rogério Meanda – se destacaram no arranjo. Embora o coro (formado pelas vozes dos cantores Luna Messina, Márcio Lott, Mansa Fossa e Pedrão Baldanza) tenha soado dispensável na faixa, a gravação de Gal tem ar jovial em sintonia com a letra de Antonio Cicero, cujos versos finais fizeram trocadilho com a boate Crepúsculo de Cubatão (1984 – 1989), um dos pontos mais fervilhantes e de aura hype na noite carioca dos anos 1980. A propósito, a letra de Acende o crepúsculo é a celebração dessa lendária boate do bairro de Copacabana frequentada por Cicero. O verso “Toma um came e case” alude ao principal drink do Crepúsculo, Kamikaze, de efeito alucinante. Eco da contracultura da década de 1960, a voz cristalina de Gal sempre brilhou quando a cantora incursiona pelo universo do rock. Por isso, Gal soube valorizar a música de Marina Lima e Antonio Cicero que apresentou no álbum Bem bom. Música que ficou esquecida nesse disco, inclusive pela própria Gal, ainda que a artista a tenha cantado uma vez no programa Cassino do Chacrinha, um dos campeões de audiência da TV Globo no ano em que Gal Costa acendeu esse rock bem bom de Marina Lima e Antonio Cicero. ♪ Ficha técnica da Música para descobrir em casa 17 : Título: Acende o crepúsculo Compositores: Marina Lima e Antonio Cicero Intérprete original: Gal Costa Álbum da gravação original: Bem bom Ano da gravação original: 1985 Regravações que merecem menções: A música Acende o crepúsculo nunca foi regravada. ♪ Eis a letra de Acende o crepúsculo : “Em parte, a gente é arte Em outra parte, técnica Sou de carne e osso e eletrônica Cara, me dá um sorriso Que a vida é crise Toma um came e case Pega, chuta, muda Que o amor é só roleta russa Não existe regra nem exceção Basta um certo estilo de improvisação Cara, a vida é brisa Me leva pro Japão Ou nessa madrugada Vem e barbariza Acende o crepúsculo De Cubatão”





