Atores brancos deixarão de dublar personagens de outras etnias em ‘Os Simpsons’
Apu, o médico Dr. Hibbert e Carl Carlson, amigo do protagonista Homer Simpson devem ganhar novos dubladores. Decisão acompanha as manifestações após a morte de George Floyd. 'Os Simpsons' enfrenta acusações de racismo envolvendo personagem indiano Apu Divulgação Em comunicado divulgado nesta sexta-feira (26) os produtores da animação "Os Simpsons" informaram que atores brancos deixarão de dublar personagens de outras etnias e que o elenco será reformulado. A decisão foi tomada após outras séries de animação como "Family Guy", "Central Park" e "Big Mounth" anunciarem mudanças no elenco, pressionadas pelas manifestações Black Lives Matter, após o assassinato de George Floyd em Minneapolis nos Estados Unidos. No comunicado os produtores afirmam que “dando um passo em frente, os Simpsons deixarão de ter atores brancos a dar voz a personagens de cor” Há cerca de 5 meses o personagem de Apu Nahasapeemapetilon — dono de um supermercado e de origem indiana, dublado pelo ator branco Hank Azaria desde o começo da série — um dos mais problemáticos da série por representar indianos de uma maneira estereotipada deixou de aparecer nos novos episódios da produção. O ator que dublava o personagem decidiu abandonar a animação após o lançamento do documentário "O problema com Abu" de 2017, no qual o ator e comediante de origem indiana Hari Kondabolu denuncia os estereótipos associados ao personagem, começando por seu sotaque carregado. Além do Apu, o médico Dr. Hibbert e Carl Carlson, amigo do protagonista Homer Simpson também devem ganhar novos dubladores.
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‘Eu fiquei muito mal’, diz sertanejo Zé Neto após anunciar que testou positivo para Covid-19
Em vídeo, cantor que faz isolamento na casa dele, em Rio Preto (SP), reforça pedido para fãs se cuidarem. "Para não cometerem os mesmos erros que eu talvez tenha cometido, se cuidem. Fiquem em casa." Sertanejo Zé Neto, da dupla com Cristiano, revela que testou positivo para Covid-19 O sertanejo Zé Neto, da dupla com Cristiano, publicou na tarde deste domingo (28) um vídeo nas redes sociais agradecendo pelo apoio que está recebendo depois de ter testado positivo para Covid-19 e pedindo para as pessoas não cometerem erros. Além o cantor, o pai dele foi diagnosticado com o novo coronavírus. O artista permanece em isolamento social na casa onde mora com a família em São José do Rio Preto (SP). Sertanejo Zé Neto está em isolamento em casa, em Rio Preto (SP), após testar positivo para Covid-19 Arquivo Pessoal "Eu fiquei muito mal e, segundo o médico, não sofri um terço do que uma pessoa com Covid, no pior estágio, sofre", comentou no vídeo. "Meu pai foi assintomático. Queria até ter falado antes para vocês, mas meu estado de saúde não permitiu. Quero agradecer pelas palavras de conforto”, afirmou o cantor. De acordo com Zé Neto, algumas pessoas "meteram a boca" depois de ele ser diagnosticado com a doença. Zé Neto e Cristiano fizeram live na noite de domingo em Rio Preto Reprodução/Youtube “Alguns aí meteram a boca dizendo que a gente não respeita. A gente respeita, mas comete falhas em algum momento. Ninguém é 100% perfeito, todo mundo está sujeito a erro. Infelizmente, essa doença não permite erros”, disse. “Para vocês não cometerem os mesmos erros que eu talvez tenha cometido, se cuidem e fiquem em casa. Realmente é muito sério." Ao final do vídeo, o cantor sertanejo fez um comentário para as pessoas que "falaram mal". “Eu só lamento. Daqui alguns dias, estou zero bala de novo. Beijo no coração e Deus abençoe”, disse o sertanejo. Mulher e filhos testaram negativo Natália Toscano, mulher de Zé Neto, também publicou um vídeo em uma rede social para tranquilizar os fãs. Segundo Natália, apesar de morarem na mesma casa, o sertanejo não está tendo contato com a família. “Por isso vocês não o viram nas redes sociais. Eu não falei nada antes, porque estávamos esperando o resultado. Nenhum de nós estamos. Nem a Angelina, nem o José, nem eu, nem minha sogra, nem minhas funcionárias”, disse. Natália Toscano gravou vídeo para dizer que família está bem Reprodução/Instagram Natália também afirmou que a família está tomando todos os cuidados possíveis e que o marido está bem. “Ele [Zé Neto] está isolado por precaução, para que não passe para frente. Estou cuidando super bem. Estamos sendo bem auxiliados. Infelizmente, faz parte da nossa vida atual. Estamos sujeitos a pegar ou não”, afirmou. Zé Neto decidiu fazer o teste de coronavírus no Hospital de Base após apresentar tosse, espirro e febre. No entanto, a assessoria não soube informar exatamente quando o exame foi realizado. Cantor Zé Neto, da dupla com Cristiano, testa positivo para Covid-19 Reprodução/Instagram Veja mais notícias da região no G1 Rio Preto e Araçatuba Initial plugin text
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A frustrada tentativa de Monteiro Lobato em ganhar mercado nos EUA com livro considerado racista
Monteiro Lobato (1882-1948) já tinha vários livros publicados quando vislumbrou fazer sucesso no mercado editorial anglófono. Na bagagem carregava sua esperança: o romance 'O Presidente Negro'. Lobato bateu à porta de pelo menos cinco editoras nos Estados Unidos — e colecionou nãos. Monteiro Lobato Wikimedia Commons/BBC Monteiro Lobato (1882-1948) já tinha vários livros publicados — entre os quais Cidades Mortas, Urupês e O Saci e contos que depois seriam incluídos no famoso Reinações de Narizinho, de 1931 — quando vislumbrou fazer sucesso no mercado editorial anglófono. Sonhando se tornar um novo H. G. Wells (1866-1946), cultuado pelo A Guerra dos Mundos, de 1898, passou cerca de quatro anos nos Estados Unidos, na segunda metade da década de 1920. Na bagagem carregava sua esperança: o romance O Presidente Negro — originalmente O Choque das Raças ou O Presidente Negro. Com um enredo fortemente racista, a obra não teve aceitação entre os editores americanos. De acordo com o livro Um País se Faz com Tradutores e Traduções: A Importância da Tradução e da Adaptação na Obra de Monteiro Lobato, do escritor e tradutor britânico John Milton, Lobato bateu à porta de pelo menos cinco editoras nos Estados Unidos — e colecionou nãos. "Lobato se via como um novo H. G. Wells, mas os temas centrais (a segregação completa entre brancos e negros, a tentativa dos brancos de esterilizarem os negros e a influência da eugenia, sugerindo que os brancos fossem superiores aos negros) eram sensíveis demais para qualquer editora norte-americana se arriscar", escreve Milton. No segundo semestre de 1927, uma carta escrita a ele pelo editor da agência literária Palmer, de Hollywood, sacramentou sua frustração, alegando que "o enredo central se baseia em uma questão particularmente difícil de ser abordada neste país, porque certamente resultará no tipo mais amargo de sectarismo". "E, por esse motivo, os editores são invariavelmente avessos à ideia de apresentá-lo ao público leitor", prossegue a carta. "Nem mesmo o fato de estar ambientado 300 anos no futuro mitigaria esse fato na mente dos leitores negros." A avaliação do editor ainda alerta a Lobato que "os negros são cidadãos americanos, parte integrante da vida nacional" e promover "seu extermínio por meio da sabedoria e habilidade da raça branca" seria endossar uma "divisão violenta". O escritor brasileiro não parece ter se convencido a mudar suas ideias. Em carta enviada ao escritor Godofredo Rangel (1884-1951), seu amigo e correspondente ao longo de 40 anos, Lobato reclamou que O Presidente Negro não havia sido aceito porque "acham-no ofensivo à dignidade americana". "Errei vindo cá tão tarde", escreve. "Devia ter vindo no tempo em que linchavam os negros." "Tinha lido há muito tempo [esse livro] e reli, mais recentemente. Tenho duas considerações, na verdade duas impressões fortes que me ficaram da obra. Primeiro, do ponto de vista de uma análise externa, fiquei impressionada com a certeza, seguida da decepção, de Lobato de que a obra seria bem recepcionada, um grande sucesso nos Estados Unidos. Lobato fica perplexo porque seu livro não encontra editor, não entende por que os americanos o acharam ofensivo", comenta à BBC News Brasil a historiadora Lucilene Reginaldo, professora de Estudos Africanos na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). "Do ponto de vista da construção da obra, é surpreendente como Lobato se instrumentaliza das ideias eugenistas, das quais ele era um entusiasta confesso. Mas ele tinha plena clareza que a literatura era uma forma sutil, indireta e eficiente de promover a eugenia." Ilustração de 'A chave do tamanho', um dos livros mais populares de Lobato Divulgação/BBC Enredo O Presidente Negro começa no Brasil dos anos 1920. Ayrton sofre um acidente e acaba resgatado por um cientista excêntrico que lhe apresenta sua grande invenção: o porviroscópio, uma máquina que mostra o futuro. Assim, os personagens acompanham a vida nos Estados Unidos de 2228, em plena campanha eleitoral. A sociedade futurista americana é descrita como uma utopia modelo. Mas, segundo a história criada por Lobato, esse sucesso era devido a algumas medidas que haviam sido tomadas: o fim da imigração, a execução de todos os recém-nascidos com malformações e a esterilização dos "doentes mentais" — balaio no qual o autor inclui prostitutas, ladrões, preguiçosos e desocupados. Outra medida implementada por esse governo futurista era a intervenção estatal na reprodução. Para poder ter filhos, o casal precisava se submeter a uma análise oficial de suas características. A ideia era garantir que apenas os melhores passassem seus genes adiante. É nessa sociedade que Lobato insere uma campanha eleitoral norte-americana. E vence um candidato negro, Jim Roy. Trata-se do gatilho para que Lobato apresente os negros como "o único erro inicial contido naquela feliz composição". O livro aponta que a sorte dos Estados Unidos era que ali, devido ao ódio racial, ao contrário do Brasil não ocorreu a miscigenação — que para o autor causaria uma "degeneração" racial irreversível —, mantendo os negros segregados. Por outro lado, segundo o livro, os negros teriam uma propensão maior a se reproduzir. O que fazia com que sua população aumentasse em um ritmo superior a dos brancos. Algumas "soluções" são apresentadas para esta questão. Os negros pedem a divisão do país em dois. Os brancos sugerem extraditar todos os negros para o Amazonas. Mas a Suprema Convenção Branca cria um plano, chamado de "solução final" para o "problema negro". Eles desenvolvem uma tecnologia para alisar os cabelos dos negros — mas instalam no aparelho um componente que esteriliza quem usa. "É um livro claramente racista na ideia, na proposta, no desenlace. É um livro que ficou datado, por demais preconceituoso. Não vejo motivo para ser estudado em universidades nem escolas, muito diferente do universo infantil de Monteiro Lobato", afirma à BBC News Brasil a historiadora e antropóloga Lilia Moritz Schwarcz, professora da Universidade de São Paulo (USP) e coautora do livro Reinações de Monteiro Lobato, uma biografia do escritor. "É um livro que serve apenas para teses e dissertações que analisam o racismo do Brasil. Não é um livro para ser adotado com alunos." Com a eleição de Barack Obama, o livro O Presidente Negro voltou a ter uma edição no Brasil Pete Souza/BBC Autora do artigo Você Já Pensou no Impacto da Obra de Lobato na Construção da Estima Negra?, a psicopedagoga Clarissa Brito, especialista em Educação Infantil, enfatiza à BBC News Brasil que considera O Presidente Negro a "expressão explícita de seu posicionamento político, defensor da eugenia e seu desejo de extermínio do povo negro". Quando Barack Obama disputava a Presidência dos Estados Unidos, em 2008, a editora Globo Livros relançou o romance. À BBC News Brasil o editor Mauro Palermo enfatiza que Lobato precisa ser lido considerando que ele "escreveu suas obras entre 1920 e o fim da década de 1940". "Creio que leitores atuais encontrarão nessas histórias, além do entretenimento, uma oportunidade rica de entender e discutir como se comportava a sociedade brasileira há um século e, a partir daí, refletir sobre o quanto já caminhamos na luta contra o racismo e o tanto que ainda precisamos nos desenvolver e aprimorar", diz. "Infelizmente nos entristece perceber que essa longa caminhada está longe de chegar ao fim." "Não me julgo competente para opinar, de formar mais circunstanciada, sobre a tipificação do crime de racismo na produção artística em geral e literária em particular. É evidente que minha postura de cidadã diante de um texto ou autor contemporâneo que propaga ideias racistas, xenófobas, homofóbicas, machistas é de firme repúdio, denúncia e execração", avalia Reginaldo. "Creio que é diferente tratar de textos e autores contemporâneos e de textos e autores do passado, embora para mim o racismo seja execrável, um cancro maligno, no século 19, no século 20 e nos dias atuais." Ela ressalta, contudo, que como historiadora, lê obras que formularam e propagaram ideias racistas. "São fontes de pesquisa. Por exemplo, como dever de ofício e também por interesse, li mais de uma vez o livro Africanos do Brasil, de Raimundo Nina Rodrigues. Este e outros livros deste autor são fundamentais para a compreensão do ideário racista que está na base do pensamento social brasileiro do século XIX e início do XX. Mas a obra de Rodrigues informa muito mais, por exemplo, para os estudiosos das religiões afro-brasileiras e dos africanos no Brasil. Um olhar crítico sobre estas produções me permite analisar texto e contexto; singularidades, diálogos intelectuais, sub-textos. Poderia dizer o mesmo sobre clássicos da literatura ocidental e brasileira. Aí também se inscreve parte da polêmica e resistência sobre o reconhecimento do racismo na obra de Monteiro Lobato. Querem lhe preservar uma aura insustentável e, quero crer, desnecessária." Até janeiro do ano passado, quando Monteiro Lobato entrou em domínio público, a Globo detinha a exclusividade da publicação de suas obras — de acordo com Palermo, foram 7 milhões de livros vendidos, considerando todo o catálogo do escritor, nos últimos 12 anos. As insinuações preconceituosas de Lobato não se restringem ao romance O Presidente Negro. Estão presentes em toda a sua obra, inclusive nos clássicos infantis que compõem a coleção Sítio do Picapau Amarelo. Obras infantis "Metaforicamente, podemos dizer que Narizinho e Pedrinho tinham duas avós. A de sangue, que incessantemente buscava repassar seu conhecimento formal para seus netos. E a tia Nastácia que era a responsável pelos ensinamentos advindos de sua experiência de vida. As duas avós eram igualmente importantes na criação e na formação de seus 'netos'. As referências à tia Nastácia na obra refletem o pensamento da época e isso nos choca tremendamente hoje", analisa Palermo, sobre o universo infantil de Lobato. A Companhia das Letras, outra editora que tem publicado obras de Lobato, afirma à reportagem que opta por notas de rodapé para que os mediadores da leitura — sejam eles professores, sejam eles pais — contextualizem a questão às crianças. "Ficou estabelecido que todos os livros viriam com notas que pudessem contribuir às discussões das questões problemáticas da obra dele", afirma a assessoria de comunicação da editora. Sobre O Presidente Negro, a editora afirma que a polêmica obra "não está e não estará em catálogo". O racismo na obra infantil de Monteiro Lobato chegou até o Supremo Tribunal Federal. A história começou em 2010, quando o Conselho Nacional de Educação (CNE) determinou que o livro Caçadas de Pedrinho não fosse mais disponibilizado às escolas do sistema público, por conta do conteúdo racista. "Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou, que nem uma macaca de carvão" e "Não vai escapar ninguém — nem Tia Nastácia, que tem carne preta" foram trechos utilizados para justificar a medida. Diante de recurso do Ministério da Educação, o caso chegou ao Supremo. Os debates foram encerrados apenas no mês passado. "Tratava-se de mandado de segurança do STF com o qual se pretendia obter indiretamente a anulação de pareceres do Conselho Nacional de Educação. Referidos pareceres trataram da aquisição de obras literárias pelo Ministério da Educação destinados ao Programa Nacional Biblioteca na Escola. Alegavam os impetrantes que o Ministério da Educação, ao autorizar a aquisição de livros que contenham expressões reforçadores de estereótipos raciais, viola frontalmente as normas gerais da Administração Pública e a legislação internacional sobre o racismo", contextualiza à BBC News Brasil o jurista Carlos Ari Sundfeld, professor da FGV-Direito. "A tentativa de proibir os livros de Lobato parece estar baseada na ideia de que a ficção literária não poderia, sob pena de praticar crime, tratar do racismo sem fazer sua crítica explícita. É uma visão que reclama que toda literatura, para ser lícita, seja militante. A visão é compreensível em função de nosso grave problema, não superado, com o racismo. Mas não há fundamento jurídico para a proibição de livros em casos assim, o que seria incompatível com a liberdade, um valor fundamental, cuja prevalência justifica uma orientação muito restritiva quanto ao poder de o Estado intervir no mundo das palavras", afirma Sundfeld. "Para que se proíba a circulação de um livro não basta que ele incorpore, nos personagens, nas situações, nas frases ou nas palavras, algum tipo de elemento que, sem condená-lo, remeta ao racismo. É preciso que se trate de um caso extremo, difícil, aliás, de ocorrer em obras apenas literárias, de apologia e incitação inequívoca e grave ao racismo." "As referências à tia Nastácia em 'Reinações de Narizinho' refletem o pensamento da época e isso nos choca tremendamente hoje", analisa o editor Mauro Palermo Divulgação/BBC O assunto foi encerrado no Supremo em 22 de maio, mas sem julgar o mérito. "O STF entendeu que não lhe cabia analisar o assunto, pois o que se estava impugnando era o ato de homologação, pelo Ministro da Educação, desses pareceres. Mas o STF não tem competência originária para julgar mandados de segurança contra atos de ministros de Estado", explica o jurista. Especialistas e educadores acreditam que a obra infantil de Lobato deve ser lida e debatida em escolas. "Não se trata de retirar suas obras do mercado. Muito melhor do que isso é que a obra venha acompanhada por notas que problematizem a questão do racismo", defende Schwarcz. "Sempre acho que em história precisamos problematizar esses termos para que eles não passem 'em branco', com muitas aspas. É preciso fazer com que fique evidente o racismo presente nessa obra, isso é fazer muito mais do que censurar o autor." Ela defende a necessidade de, no ambiente escolar, formar e informar os professores, para que eles saibam como tratar livros assim. "Que o professor alerte o aluno a todo momento em que houver personagens ou situações ou contextos racistas. Chamar a atenção, perguntar por que a Tia Nastácia tinha apenas saberes localizados enquanto os personagens brancos conheciam história, ciência, civilização. Por que personagens negros foram descritos a partir de seus beiços alargados e sua cor, enquanto os brancos, não, como se brancura fosse uma não cor. Minha atitude como professora nunca é de censura, e sim de interpelar essas narrativas com outras questões, que são as questões do nosso momento", afirma. "Os livros de Lobato devem estar em catálogo, com notas de rodapé", prossegue. "E essas notas precisam servir de gatilho para que a classe discuta a questão do racismo no Brasil. Isso é fundamental em um país que vive um racismo estrutural e institucional." "Sou favorável às edições críticas", complementa Reginaldo. "Parece que há algumas iniciativas nesse sentido neste momento, o que mostra a importância e ressonância do debate iniciado em 2010. Há tempos, circula uma nota crítica nas Caçadas de Pedrinho sobre a proibição da caça das onças. Num artigo publicado em 2010, Ana Maria Gonçalves chama a atenção para a a mea culpa de Lobato reconhecendo seu preconceito contra os camponeses representados pelo personagem Jeca Tatu, que foi incorporado na quarta edição de Urupês. Mas como já confessei em outra ocasião, ao ler Caçadas de Pedrinho e outros para meu filho com então 6 anos, me vi na obrigação de mãe de protegê-lo. Editei e omiti termos que me soavam impronunciáveis. Mas sei que isso também foi praxe nas versões televisivas do Sítio do Picapau Amarelo." Importância de Lobato para crianças "Não tenho nenhuma ressalva — na verdade acho fundamental — que se publique a obra de Lobato na íntegra. Lobato deve ser lido", comenta Reginaldo. "Como historiadora, vejo aí uma fonte preciosa para os estudiosos e para reflexão crítica sobre o Brasil. Com outras preocupações e recursos analíticos, em razão do seu valor literário — que aliás, aqui não se discute, também é fonte para os estudiosos da literatura e de outras áreas. No ambiente escolar, especialmente para jovens e adolescentes, acompanhado de boas edições críticas, pode ser lido. Mas nas mãos do público infantil, no qual a literatura é sobretudo expressão do lúdico, mas que ao mesmo tempo introjeta valores, creio que não se pode ignorar o debate que vem sendo feito desde 2010, pelo menos. Ouvi muita gente dizendo que leu Lobato na infância e não se tornou racista. Mas acho que, por meio de processos indiretos sem ódio, sem truculência, podem ter aprendido a naturalizar as hierarquias raciais, se colocarem como personagens centrais e protagonistas da história, tornado-se, por conseguinte, insensíveis às dores e humilhações alheias. Defender ardorosamente a aura de Lobato é um lugar de privilégio!" Série do Sítio do Picapau Amarelo, remake feito pela TV Globo dos anos 2001 a 2007 Divulgação/BBC Para a especialista em Educação Infantil Clarissa Brito, é preciso atentar para o fato de que expressões da obra de Lobato — como "negra cor de lodo", "carne preta" ou próprio uso do termo "negra" no vocativo — sejam compreendidas como ferramenta de reprodução do racismo. Ela defende que as obras do autor sejam utilizadas em escolas, mas não na Educação Infantil, tampouco nas séries iniciais do Ensino Fundamental. É para alunos mais maduros, opina. "Monteiro Lobato pode atravessar salas de aula no momento em que são estudadas as marcas da opressão colonial e os recursos políticos, sociais e econômicos para a perpetuação da segregação racial", defende ela. "Acredito que as crianças não precisam entrar em diálogo com uma obra que por anos vem estigmatizando figuras negras, reproduzindo um imaginário social que agride a estima de tantos homens e mulheres negras", completa. "Vejo a iniciativa de comentário e notas, como uma questão forte que assola nossa sociedade, que são os recursos que tratam de minimizar o racismo e buscar caminhos de não legitimar o crime de injúria racial." Editor da Globo Livros, Palermo acredita que livros de Lobato, sejam os infantis, seja o polêmico O Presidente Negro, "podem ser usados como subsídio à discussão do racismo em escolas". "Proibir me parece a negação da existência", comenta ele. "Entender o passado é o melhor atalho para mudarmos o presente e melhorarmos o futuro."
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Fãs de Mia Khalifa fazem petição para que seus vídeos adultos antigos sejam retirados da internet
Petição conta com mais de 800 mil assinaturas. Ex-atriz pornô Mia Khalifa Reprodução/Mia Khalifa/Instagram Fãs da ex-atriz pornô Mia Khalifa, agora influencer e comentarista esportivo, criaram uma petição online pedindo a remoção de todos os seus vídeos adultos da internet e a recuperação de seu domínio de sites adultos. O abaixo-assinado ultrapassou mais de 800 mil assinaturas neste domingo (28). Segundo a petição, Mia e sua equipe já fizeram ofertas aos proprietários dos sites para a remoção do conteúdo, no entanto, não teve retorno. A iniciativa ganhou força depois que a influencer fez um apelo para que suas seguidoras nas redes sociais não entrem na indústria de filmes eróticos. "Meninas, não façam isso. Não vale a pena", disse ela. Khalifa tem usado Twitter, TikTok e Instagram para conversar com seus fãs sobre comentários e ataques que recebe diariamente. Khalifa, de 27 anos, não atua em filmes adultos há seis anos. Ela participou de 11 filmes quando tinha 21 anos. A ex-atriz agradeceu o apoio dos fãs por meio de uma rede social e afirmou que a petição está ajudando ela a recuperar sua dignidade. "A geração Z nunca dorme? Eu estou realmente preocupada. Vocês viram isso há 30 minutos no tiktok e tinham 500 assinaturas. Eu amo tanto vocês que assinaram este convite para minha festa de aniversário. É uma lista de convidados, não uma petição". Initial plugin text
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Discos para descobrir em casa – ‘Bandeira branca’, Dalva de Oliveira, 1970
Capa do álbum 'Bandeira branca', de Dalva de Oliveira Reprodução ♪ DISCOS PARA DESCOBRIR EM CASA – Bandeira branca, Dalva de Oliveira, 1970 ♪ Lâmina afiada que rasgou corações com canto melodramático que ecoou forte pelo Brasil ao longo dos áureos anos 1950, a voz de Vicentina Paula de Oliveira (5 de maio de 1917 – 30 de agosto de 1972) já soou menos incisiva no derradeiro álbum da cantora, Bandeira branca, lançado pela gravadora Odeon em 1970, dois anos antes do apagar definitivo dessa estrela da era do rádio. Ainda assim, a marcha-rancho que deu nome ao disco, Bandeira branca (Max Nunes e Laércio Alves), fez sucesso nos salões do Carnaval de 1970, atravessou gerações de foliões e permaneceu na memória popular, inclusive como o canto de cisne da estrela Dalva de Oliveira, nome artístico dessa luminosa artista paulista de Rio Claro (SP). Gravado sob direção musical do maestro paulista Lyrio Panicalli (1906 – 1984), com orquestrações e regências de Lindolpho Gaya (1921 – 1987) e Nelson Martins dos Santos (1927 – 1996), o maestro Nelsinho, o álbum Bandeira branca soou fora de sintonia com o efervescente tempo musical de 1970. A tristeza da música-título, última marca-rancho a reverberar nos salões carnavalescos, se alinhou com a nostalgia propagada na regravação de recente pérola do gênero, Estão voltando as flores (Paulo Soledade, 1961), sucesso de Helena de Lima há então nove anos. O apego ao gênero também se mostrou presente na cadência de Chuva de verão (Itaquiara e Dora Lopes, 1969), música que encerrou o álbum Bandeira branca com gravação já previamente lançada em coletânea foliã do ano anterior para fazer a música emplacar nos salões de 1970. Esse apego fez sentido porque, há três anos, no Carnaval de 1967, a voz de Dalva voltara a brilhar com a gravação da marcha-rancho Máscara negra (Zé Kétti e Pereira Matos, 1966), apresentada pela estrela em single de 1966. Aberto com a valsa Oh! meu imenso amor (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1969), lançada no ano anterior por Roberto Carlos em gravação ofuscada por outras músicas (bem) mais fortes do LP de 1969 do cantor, o álbum Bandeira branca hasteou estandartes de era radiofônica em que a cristalina voz de soprano de Dalva irradiava melodramas musicais para todo o Brasil em escalada iniciada pela cantora na segunda metade dos anos 1930, como integrante do Trio de Ouro, com quem fez história em gravações como a de Ave Maria no morro (Herivelto Martins, 1942). Essa trajetória ganhou relevo quando, em 1947, Dalva fez a primeira gravação descolada do trio, projetando o samba-canção Segredo (Herivelto Martins e Marino Pinto, 1947) nas paradas nacionais. Foi o prenúncio da explosão da carreira solo iniciada efetivamente em 1950, ano em que a estrela reluziu com cinco grandes sucessos sequenciais – Olhos verdes (Vicente Paiva), Tudo acabado (Osvaldo Martins e J. Piedade), Que será? (Marino Pinto e Mário Rossi), Errei, sim (Ataulfo Alves) e Ave Maria (Jayme Redondo e Vicente Paiva) – que provaram que Dalva de Oliveira poderia seguir em cena sem a benção de Herivelto Martins (1912 – 1992), o marido compositor de quem se separara em 1949 de forma ruidosa, em litígio que gerou manchetes de jornais e alfinetadas em forma de sambas-canção. Cantora referencial para divas do porte de Gal Costa, Maria Bethânia e Marisa Monte (não por acaso, as três ecoaram, em discos e shows, músicas lançadas na voz da antecessora), Dalva de Oliveira reinou nos anos 1950 – em soberania dividida com Angela Maria (1929 – 2018) – e, como todas as rainhas do rádio, Dalva viu a coroa ir parar em outras cabeças com o surgimento da bossa nova em 1958 e da MPB a partir de 1965. Aos ouvidos do público jovem formado nos inflamados festivais dos anos 1960, Bandeira branca soou justificadamente como álbum ultrapassado, mas o fato é que o disco se mostrou fiel à alma musical de Dalva. Foi para hipotético público dos auditórios de tempos idos que Dalva pareceu regravar no álbum Bandeira branca a marcha Primavera no Rio (João de Barro) e a tristonha canção Meu último luar (Waldemar Henrique), ambas músicas curiosamente lançadas em disco em 1934 e ambas até então inéditas na voz dessa estrela que, em 1970, já começava lentamente a se apagar por problemas de saúde. Ode ao Rio de Janeiro do samba e do Carnaval, o samba Onde o Rio é mais carioca (Zé Kétti e Elton Medeiros, 1969) já tinha sido lançado por Dalva no ano anterior em compacto duplo que também antecipou outra faixa do álbum Bandeira branca, Bahia da primeira missa (Armando Cavalcanti e David Nasser, 1951), lembrança do repertório de outra rainha do rádio, Dircinha Batista (1922 – 1999). Cantora hábil a propagar cartões postais do Brasil, pela naturalidade com que ia dos graves aos agudos, Dalva de Oliveira deu voz no disco tanto a um tema de aura cívica – Cisne branco (Canção do marinheiro) (Antonio Manoel do Espírito Santo e Benedito Xavier de Macedo, 1918) – quanto a folhetins musicais como Mentira de amor (Lourival Faissal e Gustavo Carvalho, 1950), samba-canção apresentado pela própria Dalva há então 20 anos. Sem fazer concessões para tentar pegar novamente o bonde da história da música brasileira (como a contemporânea Angela Maria vinha sendo induzida a fazer, em movimento fracassado), Dalva de Oliveira cantou no álbum Bandeira branca repertório alinhado com o tom dos programas de auditório da era do rádio. Os arranjos grandiloquentes dos maestros Gaya e Nelsinho para músicas como Pequena marcha para um grande amor (Juca Chaves, 1963) e o samba-canção Um homem e uma mulher (Silvio Silva e Fernando César, 1969) contribuíram para deixar o disco dolente, com a cara de Dalva de Oliveira, cantora que expiou dores de amores na cortante voz laminada, símbolo perene do Brasil folhetinesco da era do rádio.
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Humberto Barros ‘parte para cima’ com a experiência do quinto álbum solo
♪ Um dos produtores do recém-lançado quarto álbum solo de Roberto Frejat, Ao redor do precipício, o tecladista, cantor e compositor Humberto Barros se prepara para lançar o próprio disco solo. O título Experiência 05 – grafado estilisticamente na capa do álbum como 5xperiência 05 – já sinaliza que se trata do quinto trabalho autoral do artista carioca. Com 13 músicas, o álbum Experiência 05 chegará ao mercado fonográfico, somente em edição digital, cinco anos após o antecessor Longe. Longe (2015). Uma dessas 13 músicas, O estranho acontece, gravada por Barros com o guitarrista Gustavo Corsi, já foi apresentada em 30 de março. Outra, Partir pra cima, será lançada com clipe programado para entrar em rotação a partir das 19h de quarta-feira, 1º de julho. Composição da lavra solitária de Barros, Partir pra cima foi gravada pelo artista com Katia Jorgensen, cantora da banda Ave Máquina. “Partir pra cima é uma aventura bastante mais próxima do universo da MPB do que do pop rock'n'roll com o qual sempre fui mais identificado”, conceitua Humberto Barros. Na faixa, Marcelo Vig, da banda Vulgue Tostoi, toca bateria. Os demais instrumentos do fonograma – piano, acordeom, violão de nylon, guitarra, baixo e órgão – foram tocados pelo próprio Humberto Barros. Marcelo Vig, a propósito, é nome recorrente na ficha técnica do álbum Experiência 05. “Como o Marcelo Vig toca em muitas baterias, posso dizer que formamos uma pequena banda de dois”, ressalta Barros. Filha de Humberto, Clara Barros – já presente no álbum anterior Longe. Longe – participa de Experiência 05 na música É a cidade quem me avisa calma. Já Cris Brown faz vocalizes em vinheta e canta espécie de rap na faixa Se eu fosse você. Atravessei o sol e Os dias da gente são outras músicas inéditas de Humberto Barros que compõem o repertório autoral do álbum Experiência 05.
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Patricia Marx canta João Gilberto com apuro em EP de beleza atemporal
Capa do EP 'João', de Patricia Marx Biga Pessoa Resenha de EP Título: João Artista: Patricia Marx Gravadora: Poliphonia / Lab 344 Cotação: * * * * ♪ Para quem insiste em identificar em Patricia Marx a cantora infanto-juvenil do grupo Trem da Alegria ou a estrela adolescente de discos titubeantes produzidos dentro dos padrões industriais dos anos 1980, ouvir o EP João pode causar estranheza ou mesmo incredulidade. Porque o João do título do disco lançado em 26 de junho é ninguém menos do que João Gilberto Prado Pereira de Oliveira (10 de junho de 1931 – 6 de julho de 2019), um dos grandes nomes – talvez o maior – da música brasileira feita para público e intérpretes de alta estatura. Aos 46 anos, completados no domingo, 26 de junho, a paulistana Patricia Marques de Azevedo encara esse repertório como a cantora adulta invisível para muita gente grande que ainda não saltou do trem da infância e da adolescência. Neste EP com cinco músicas gravadas pela artista somente com o toque cool do violão de Willie Daniel, Patricia canta João com o apuro já sinalizado em abril pelo single que apresentou a abordagem de Estate (Bruno Martino e Bruno Brighetti, 1960), canção italiana que, vestida de bolero, foi refinada pelo canto de João em gravação do álbum Amoroso (1977). Na sequência, em maio, o single com a regravação de Once I loved (O amor em paz, Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1960, em versão em inglês de Ray Gilbert, 1965) reafirmou a habilidade da cantora para dar voz ao repertório do criador da Bossa Nova com reverência à estética minimalista do cantor baiano, mas sem tentativas vãs de clonar o estilo inimitável de João. A suavidade do violão de Willie Daniel contribui para evocar todo o universo da bossa sem emular a célebre batida diferente. O violão de Daniel simplesmente se harmoniza bem com a voz de Patricia – e essa voz trilha Caminhos cruzados (Antonio Carlos Jobim e Newton Mendonça, 1958) com emissão de beleza potencializada nos vocais feitos pela cantora nas passagens sem letra da gravação. Puristas poderão argumentar, com certa razão, que Marx nada acrescenta aos sambas Você vai ver (Antonio Carlos Jobim, 1980) e Brasil com S (Rita Lee e Roberto Carvalho, 1982), este sendo a grande sacada do repertório por rebobinar música gravada por João com Rita Lee, em álbum da cantora, a convite da roqueira mais bossa nova do Brasil. Contudo, o fato é que, justamente por ter resistido à tentação de “atualizar” o repertório de João Gilberto nessas cinco gravações captadas ao vivo em estúdio, Patricia Marx se sai bem e apresenta disco de valor atemporal como o cancioneiro a que dá voz com classe e como a cantora adulta que seguidores antigos da artista precisam ouvir com mais atenção.
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Milton Nascimento oferece ‘música em forma de amor’ na primeira live
Apresentada pelo ator Dan Ferreira, transmissão ao vivo do artista reiterou a grandeza singular do universo autoral do compositor. Milton Nascimento canta sucessos como 'Nos bailes da vida' em live realizada na noite de domingo, 28 de junho Reprodução / Vídeo Resenha de live Título: Num domingo qualquer, qualquer hora Artista: Milton Nascimento Data: 28 de junho de 2020, das 18h30m às 20h Cotação solidária: * * * * * ♪ Milton Nascimento foi apresentado pelo ator Dan Ferreira na introdução da primeira live do cantor como “a onça verdadeira”, em alusão ao apelido Yauaretê que Milton ganhou de Antonio Carlos Jobim (1927 – 1994) e com o qual batizou álbum lançado em 1987. E foi como “o rei da floresta” – como também o caracterizou Jobim – e como o “Chico Rei” da MPB que esse carioca de alma musical mineira deu voz a grandes títulos do cancioneiro autoral na live intitulada Num domingo qualquer, qualquer hora. O nome dessa transmissão ao vivo pela internet – acompanhada na noite de domingo, 28 de junho, por público que chegou a totalizar mais de 162 mil espectadores simultâneos – foi extraído da letra de Nada será como antes (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, 1971), canção de resistência, por isso mesmo escolhida para abrir o roteiro autoral. Confinado em Juiz de Fora (MG), Milton cumpriu a missão dos verdadeiros artistas e foi até onde está o povo consciente da necessidade de manter o isolamento social – em casa – para oferecer “música em forma de amor”, como ressaltou Dan Ferreira na introdução afetuosa da live. Acompanhado pelos músicos Christiano Caldas (nos teclados e na sanfona) e Wilson Lopes (na direção musical e no violão), Milton enfileirou infalível sequência de canções que reiteraram a grandeza singular do universo autoral do compositor. O encadeamento de músicas como Caçador de mim (Luiz Carlos Sá e Sérgio Magrão, 1980), Saídas e bandeiras (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1972), Tudo que você podia ser (Lô Borges e Márcio Borges, 1972), Paisagem da janela (Lô Borges e Fernando Brant, 1972), Dos cruces (Carmelo Larrea, 1952), Clube da esquina (Milton Nascimento, Lô Borges e Márcio Borges, 1970), Quem sabe isso quer dizer amor (Lô Borges e Márcio Borges, 1980), Caxangá (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1977), Para Lennon & McCartney (Márcio Borges, Lô Borges e Fernando Brant, 1970) – esta com acento jazzy no arranjo – e Paula e Bebeto (Milton Nascimento e Caetano Veloso, 1975) expôs a força perene de cancioneiro que abriu caminhos melódicos e harmônicos na MPB dos anos 1960 e 1970. Enquanto cantou Cais, parceria com Ronaldo Bastos que apresentou no álbum Clube da Esquina (1972), Milton foi ao piano reproduzir a antológica introdução da gravação original de 1972. Já O cio da terra (Milton Nascimento e Chico Buarque, 1977) e Morro velho (Milton Nascimento, 1967) tiveram a inspiração rural evocada pelo toque da sanfona de Christiano Caldas. Entre beijos mandados para amigos artistas (Criolo, Danilo Mesquita, Fafá de Belém, Maria Gadú e Samuel Rosa, entre outros nomes) e louvações aos produtos dos patrocinadores da live, o cantor fez Promessas do sol (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1976) e saudou o parceiro Fernando Brant (1946 – 2015) antes de cantar Outubro (1967). Em determinado momento, o cantor pegou a sanfona para reviver Ponta de areia (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1974) em número já conhecido do público assíduo dos shows do artista. A sanfona, então já a cargo de Christiano Caldas, também pontuou a interpretação de San Vicente (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1972). Na parte final do roteiro, turbinado com sucessos certeiros como Maria Maria (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1976), a canção Nos bailes da vida (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1981) sintetizou o espírito da música amorosa e gregária do artista que, mais uma vez, foi onde o povo está, tendo sido recepcionado com dose igual de amor por esse povo.
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‘Despertador da favela’: como a cultura das motos em SP fez acelerar a carreira do MC Lipi
Ex-motoboy de 19 anos virou um dos funkeiros mais ouvidos do Brasil com músicas que exaltam a moto e falam da vida na favela, como 'Motoloka' e 'Olha esses robôs – despertador das favelas'. MC Lipi no clipe de 'Motoloka' Divulgação Luiz Felipe Messias Lopes já entregou pizza como motoboy, mas foi outro trabalho ligado à moto que fez seu nome circular por todas as quebradas de SP. O MC Lipi, de 19 anos, virou fenômeno no funk com músicas que exaltam as motocicletas. Na semana entre 12 e 18 de junho, Lipi foi o 11º artista mais ouvido do Brasil, à frente de nomes como Anitta, Luan Santtana e Wesley Safadão. Seus maiores hits são "Motoloka", "Vitória chegou" e "Olha esses robôs", com o marcante verso "o barulho do robozão é o despertador da favela". Lipi faz parte da nova geração do "funk consciente" de SP, que fala sobre a vida difícil na favela, com ecos de louvor religioso. A moto (também chamada de robô ou nave) é o grande símbolo do dia a dia na comunidade e da superação das dificuldades. Conheça a história da nova geração do funk consciente no podcast abaixo: Ele diz que fez seu primeiro funk há seis anos, quando trabalhava em um ferro velho em Ilhabela, no litoral de SP, ganhando R$ 400 por mês. Fez outros bicos na Vila Ré, Zona Leste de SP, como distribuir panfletos e entregar pizza usando a moto de um amigo. Mas foi cantando sobre o veículo que ele achou uma saída. Ele foi um dos MCs que deu a cara deste funk atual. Entrou para a produtora Gree Cassua, que tem como um dos sócios do veterano DJ Perera, em 2015. Foi lá que conheceu Paulin e outros parceiros, que depois iriam para a Love Funk. “Comecei a querer a falar mais da minha realidade, do que eu vejo, do que os outros passam e eu passava", ele diz. "A gente falava de carro, mas não via nem carro direito. O que eu vejo na minha quebrada é moto passando para lá e para cá”, diz o ex-motoboy. Além de realidade, a moto é também um desejo para muita gente em volta dele. "Tem muito moleque que sonha em ter uma moto", diz Lipi. A letra de “Olha esses robôs” ainda tem elementos da onda anterior do funk sexual. Mas foi o verso “o barulho do robozão é o despertador da favela” que fez a música de Lipi com Digo STC virar um hino instantâneo. Leia mais: Com fé em Deus e ode às motos, novo 'funk consciente' supera letras sexuais e renova o estilo DJ GM e MC Lipi no clipe de 'Motoloka' Divulgação Por que a moto? A cultura da moto é antiga no funk de São Paulo. Em 2014, por exemplo, o MC Bin Laden emplacou o sucesso "Bololo haha". O título é explicado no especial do G1 "O Mundo Funk Paulista", de 2015, que descreve o "Baile da 17", em Paraisópolis: "São quase 23h30, e carros de som e barracas de bebida enchem a rua Herbert Spencer. Os meninos geralmente chegam em grupos e ficam à beira da calçada. Muitas motos fazem manobras e barulho, o chamado “bololo” – quando se retira o filtro do escapamento para aumentar o ruído do motor." Mas no novo funk consciente, a moto faz ainda mais barulho. MC Paulin da Capital, parceiro de Lipi e outro ídolo da nova geração, explica: "A moto dá pra dar 'um grau'. Tem gente que sonha em ter uma moto para andar na quebrada, e nem biclicleta tem para sonhar. E têm os motoboys sofredores. É um meio de trabalhar também." Lipi, Paulin e boa parte do novo funk consciente de SP estão na produtora Love Funk. O fundador da empresa, Juninho Love, tenta explicar o fenômeno das motos: "A molecada vê o "robozão" como um prêmio para eles. A maioria é motoboy, ou ajudante do motoboy, no trabalho do dia a dia. Para quem não tem poder aquisitivo, uma moto BMW GS é um sonho."
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Lives da semana: Fernando e Sorocaba, Elza Soares, Lexa, Joelma, Péricles e mais shows
Veja agenda de lives entre segunda (29) a domingo (5). Teresa Cristina, Xande de Pilares, Sandra de Sá, Gabeu, Psirico, Parangolé e Sepultura também fazem transmissões. Fernando & Sorocaba durante show em Barretos em 2019 Ricardo Nasi / G1 Fernando e Sorocaba, Lexa, Joelma e Teresa Cristina estão com lives programadas entre segunda (29) e domingo (5). Veja a lista completa com horários das lives abaixo. O G1 já fez um intensivão no começo da onda de lives, constatou o renascimento do pagode nas transmissões on-line, mostrou também a queda de audiência do fenômeno e a polêmica na cobrança de direito autoral nas lives. Segunda (29) Arismar do Espírito Santo (Em Casa com Sesc) – 19h – Link "Carta da Terra Festival" com Caetano Veloso, Gilberto Gil, Arnaldo Antunes, Fábio Porchat, Marcos Palmeira e outros – 19h – Link Cavalo de Pau – 19h – Link Limão com Mel – 21h – Link Cida Moreira (#Cultura em Casa) – 21h30 – Link Teresa Cristina – 22h – Link Terça (30) Sandra de Sá (Em Casa com Sesc) – 19h – Link Arraiá do Gabeu – 20h – Link Teresa Cristina – 22h – Link Quarta (1º) Sepultura – 16h15 – Link Lô Borges (Em Casa com Sesc) – 19h – Link Teresa Cristina – 22h – Link Quinta (2) Lula Ribeiro (Em Casa com Sesc) – 19h – Link Trap Show com Murilo Couto – 20h – Link Teresa Cristina – 22h – Link Sexta (3) Breno Ruiz (Em Casa com Sesc) – 19h – Link Parangolé – 20h – Link Teresa Cristina – 22h – Link Joelma – 22h45 – Link Sábado (4) Grupo Clareou – 15h – Link Leonardo, Bruno e Marrone, Os Parazim, Edson e Hudson – BBQ Mix em Casa – 16h – Link Péricles – 18h – Link Xande de Pilares – 18h – Link Elza Soares com participação de Flávio Renegado (Em Casa com Sesc) – 19h – Link Pixote – 20h – Link Lexa – 18h – Link Teresa Cristina – 22h – Link Domingo (5) O Grande Encontro – Alceu Valença, Elba Ramalho e Geraldo Azevedo – 15h – Link Fernando e Sorocaba – 16h30 – Link Paula Fernandes – 17h – Link Psirico (Samba de Roda do Psi) – 17h30 – Link Detonautas – 18h – Link Sapopemba (Em Casa com Sesc) – 19h – Link Teresa Cristina – 22h – Link As cenas de 'lives' da quarentena que já estão na história do entretenimento brasileiro
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