Jorge Aragão ‘atravessa’ o samba com single sobre feminicídio
Mesmo com a boa intenção de valorizar a vida da mulher, artista erra o enfoque ao abordar o tema na letra de 'Ninguém vale dor e despedida', música composta com Mauro Jr. e Xande de Pilares. ♪ “Porque não se resguardar se houver suspeita?”, questiona Jorge Aragão em verso do samba Ninguém vale dor e despedida, lançado pelo cantor e compositor carioca em single apresentado na sexta-feira, 5 de junho. “Seja mais leal à tua vida”, receita o artista em outro verso da letra desse samba em tom menor composto por Aragão em parceria com Mauro Jr. e Xande de Pilares. Em que pesem as boas intenções dos compositores ao tocarem na questão do feminicídio para versar sobre “o respeito e a valorização da vida da mulher, com mensagem de conscientização e esperança”, como sublinha nota enviada à imprensa pela distribuidora digital ONErpm com a notícia do single, há nítido erro no enfoque adotado pelos sambistas para abordar tema que vem chamando a atenção da sociedade brasileira pelo intolerável aumento de assassinatos de mulheres por homens. Ao longo da letra de Ninguém vale dor e despedida, os compositores Jorge Aragão, Mauro Jr. e Xande de Pilares receitam ações e emoções para mulheres às voltas com a violência masculina. Como se estivesse somente nas mãos dessas mulheres – únicas vítimas desse tipo hediondo de crime – o poder de evitar a violência enraizada em sociedade machista. Como se elas contribuíssem para o próprio assassinato ao adotar determinado tipo de comportamento diante da iminência do crime. Capa do single 'Ninguém vale dor e despedida', de Jorge Aragão Divulgação / ONErpm O grande problema da letra injusta de Ninguém vale dor e despedida – samba já em si pouco inspirado… – é que ela parece jogar sobre os ombros das mulheres parte da responsabilidade pelo feminicídio em vez de direcionar o recado para os homens criminosos que o praticam, estes, sim, os verdadeiros culpados pela escalada da violência contra a mulher no Brasil. Encerrada com o inacreditável verso “Seja então Odara…”, a letra de Ninguém vale dor e despedida deixa a impressão de que a mulher é morta porque lhe faltou autoestima e/ou a capacidade de fugir de situação de violência quando, na realidade, como mostram as reportagens sobre o tema, as vítimas dos feminicídios muitas vezes tentam em vão fugir do algoz e não raro denunciam a iminência do crime, só que nem sempre são ouvidas com a devida atenção. E, quando não denunciam, é porque se sentem acuadas pelo agressor, em situação de extrema vulnerabilidade. Por mais que a intenção tenha sido boa e que os compositores sempre tenham estado do lado do povo brasileiro, Jorge Aragão, Mauro Jr. e Xande de Pilares atravessaram o samba com o single Ninguém vale dor e despedida. ♪ Eis a letra do samba Ninguém vale dor e despedida, tal como reproduzida no canal oficial de Jorge Aragão no YouTube: Ninguém vale dor e despedida (Jorge Aragão, Xande de Pilares e Mauro Jr.) Quando é verdadeiro amor, se entrega e se respeita Isso é o que sempre se vê na tela da TV Por que não se resguardar assim que houver suspeita? Se tocar em não virar notícia pra se ler Seja mais leal à tua vida Ninguém vale dor e despedida Certamente mais alguém te amará Filhos, mãe, irmãos, tua família Olhe bem no espelho e então me entenderá Veja teu sorriso o que refletirá Ame a si, somente a si e tudo valerá Vamos combinar, o amor até pode morrer, não você em seu lugar Única e primeira opção tem que ser tua vida e ávida Odeia apanhar homem que brinca de bater Mata mas não quer morrer Seja então Odara…
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Fernanda Takai recorda o recado terno de Nico Nicolaiewsky em álbum solo
Canção do compositor gaúcho, 'Não esqueça' é o segundo single do disco que sai em julho com produção musical de John Ulhoa. ♪ “Não esqueça de lavar as mãos”, recomenda Fernanda Takai em verso que se repete carinhosamente ao fim dos três minutos e 10 segundos da gravação da canção Não esqueça. A advertência na letra dessa balada terna pode sugerir música feita durante a pandemia do coronavírus. Só que é mera coincidência ou alinhamento energético. Segunda amostra do quarto álbum solo de estúdio da vocalista do grupo Pato Fu, produzido por John Ulhoa e previsto para ser lançado em julho pela gravadora Deck, Não esqueça é música antiga, embora até então inédita em disco. Uma composição de autoria do cantor, compositor, músico gaúcho Nico Nicolaiewsky (1957 – 2014). Com letra que dá o recado afetuoso de pai para filha, com versos como “Não esqueça que a vida é para viver / Lembre sem medo de esquecer / Não espere saber como vai ser / Saiba que nunca vai saber”, a música Não esqueça pode ser ouvida em single lançado na sexta-feira, 5 de junho, com capa assinada pelo artista plástico Renato Larini. Não esqueça chega ao mundo quase um mês após o single inicial do vindouro álbum solo de Takai, Terra plana (John Ulhoa, 2020), apresentado em 8 de maio. Capa do single 'Não esqueça', de Fernanda Takai Renato Larini Nico Nicolaiewsky – cabe lembrar – foi artista popularizado nacionalmente pela atuação em Tangos & tragédias, espetáculo musical de atmosfera teatral estreado em 1984 com Nico no papel do maestro Pletskaya. Marcado pelo humor e pela música, o espetáculo Tangos & tragédias extrapolou as fronteiras do sul do Brasil ao longo dos anos 1990, popularizando Nico, de quem Takai e John Ulhoa foram amigos, colaborando ainda hoje para a preservação da obra do compositor da canção Feito um picolé ao sol (1985). Não por acaso, Ulhoa foi o produtor musical de um disco solo de Nicolaiewsky, Onde está o amor? (2007). Nico chegou a gravar a canção Não esqueça, como pode ser conferido em registros disponíveis na internet, mas nunca de forma oficial. Na voz de Fernanda Takai, Não esqueça se conecta com o single anterior da artista, Terra plana, balada que propaga recado carinhoso da cantora e de Ulhoa para a filha do casal, dado com a mesma delicadeza que pautou a gravação da canção Não esqueça.
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Maracanã chega aos 70 anos como estádio campeão no campo da música
Inaugurado em junho de 1950, o templo carioca do futebol segue invicto na área, inspirando compositores de todo o Brasil entre shows memoráveis de artistas nacionais e estrangeiros. ♪ MEMÓRIA – “Domingo, eu vou ao Maracanã / Vou torcer pro time que sou fã”, comemora Neguinho da Beija-Flor nos versos do samba que compôs e lançou em disco de 1979. O samba O campeão (Meu time) é uma das músicas feitas por compositores brasileiros sob a inspiração do Estádio Jornalista Mário Filho, (bem) mais conhecido como Maracanã e popularmente chamado de Maraca no bate-papo informal e apaixonado dos torcedores. Construído na cidade do Rio de Janeiro (RJ) a partir de 1948 para a Copa do Mundo disputada no Brasil em 1950 e oficialmente inaugurado em 16 de junho daquele ano, o Maracanã completa 70 anos como estádio campeão no campo da música. Palco de antológicos shows de artistas estrangeiros como Frank Sinatra (1915 – 1998), Madonna, Paul McCartney e Tina Turner, o estádio carioca também abrigou memoráveis apresentações de astros brasileiros como Ivete Sangalo, Los Hermanos, Roberto Carlos e Sandy & Junior. Pela aura mitológica que circunda o Maracanã no cotidiano da cidade do Rio de Janeiro (RJ), o estádio também tem sido o muso inspirador de músicas sobre futebol feitas por compositores de várias estilos ao longo desses 70 anos de vida. Compositores naturalmente cariocas e/ou residentes na cidade do Rio de Janeiro (RJ), em maioria, mas também de outros estados do Brasil. “Praia e sol / Maracanã e futebol / Domingo / Praia e sol / Maracanã e futebol / Que lindo”, rimou Bebeto na ginga popular do samba Praia e sol (parceria com Adilson Silva, de 1982), um dos maiores sucessos desse cantor e compositor de origem paulistana e obra carioca. Na área musical, o pontapé inicial no Maracanã foi dado ainda em 1950 pelo Vagalumes do Luar, conjunto vocal que gravou Colosso do Maracanã, composição de Ari Machado e Anthony Sergi, mais conhecido como Totó. Em 1958, o compositor paulista Denis Brean (1917 – 1959), em parceria com o conterrâneo Osvaldo Guilherme, lançou o tema Vingamos Maracanã com o toque da Orquestra Columbia para celebrar a vitória do Brasil na Copa do Mundo da Suécia, naquele ano, e ir à forra pela derrota amargada pela Seleção e pelo povo brasileiro na final da Copa de 1950, disputada no Maracanã. Francis Hime é parceiro de Paulo César Pinheiro no samba 'Maracanã', lançado em 1997 Nana Moraes / Divulgação Craques cariocas, os compositores Francis Hime e Paulo César Pinheiro fizeram gol de placa ao louvar o estádio no samba Maracanã (1997), em cuja letra o poeta compara o templo do futebol a uma catedral. Nessa letra, Pinheiro menciona o domingo, dia sagrado para os torcedores cariocas. O que justificou plenamente o título, Domingo tem Maracanã, do samba composto e lançado 25 anos antes pelo cantor Pedro Paulo. De 1972, o samba Domingo tem Maracanã tem arquitetura mais simples do que a construção rebuscada de Mar de Maracanã, composição de Guinga e Edu Kneip lançada por Guinga em 2007 e regravada pelo autor em 2013 em disco dividido com o vascaíno Francis Hime. Cinquenta anos antes, com empolgação carnavalesca, a cantora carioca Gilda de Barros (1927 – 2010) seguiu em 1963 o bloco da torcida musical com a gravação da marcha A bola do Maracanã (Gracia e Chavito). Com poesia que desceu mais redonda, os compositores Toquinho e Mutinho perfilaram a dona dos jogos no Maracanã no samba A bola, lançado na voz de Moraes Moreira (1947 – 2020) no álbum infantil Casa de brinquedos (1983). “Quando eu balanço a rede, é festa no Maracanã”, comemorou Moreira, novo baiano que, no mesmo ano de 1983 em que gravou A bola, apresentou Saudades do Galinho, marcha-frevo autoral em que destilou a nostalgia que sentia nas tardes de domingo sem “Zico no Maracanã”. Os compositores cearenses Fagner e Fausto Nilo também saudaram o Maracanã em Bola no pé, pseudo-samba gravado por Fagner em 1985 com arranjo turbinado com guitarras. Enfim, cariocas, paulistas, cearenses, gregos ou baianos, todos os compositores sabem que o Maracanã é o estádio campeão e invicto do Brasil no campo da música.
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G1 Ouviu #92 – Lives de pagode reavivam o amor dos brasileiros pelo ritmo
Podcast mostra como a audiência do pagode surpreendeu e superou, com base na nostalgia, outros estilos que estavam melhores nas paradas atuais. Você pode ouvir o G1 ouviu no G1, no Spotify, no Castbox, no Google Podcasts ou no Apple Podcasts. Assine ou siga o G1 Ouviu para ser avisado sempre que tiver novo episódio no ar. O que são podcasts? Um podcast é como se fosse um programa de rádio, mas não é: em vez de ter uma hora certa para ir ao ar, pode ser ouvido quando e onde a gente quiser. E em vez de sintonizar numa estação de rádio, a gente acha na internet. De graça. Dá para escutar num site, numa plataforma de música ou num aplicativo só de podcast no celular, para ir ouvindo quando a gente preferir: no trânsito, lavando louça, na praia, na academia… Os podcasts podem ser temáticos, contar uma história única, trazer debates ou simplesmente conversas sobre os mais diversos assuntos. É possível ouvir episódios avulsos ou assinar um podcast – de graça – e, assim, ser avisado sempre que um novo episódio for publicado G1 ouviu, podcast de música do G1 G1/Divulgação
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Fiduma, dupla sertaneja de Jeca, tem paralisia facial periférica; live dos artistas é cancelada
Segundo comunicado compartilhado nas redes sociais, cantor já 'iniciou o tratamento necessário e está em ótima recuperação'. Fiduma, dupla sertaneja de Jeca, tem quadro de paralisia facial periférica Reprodução/Instagram Fiduma, que forma dupla sertaneja com Jeca, sofreu uma paralisia facial periférica. A informação foi dada através de um comunicado na rede social dos artistas. Segundo a publicação, Fiduma — apelido de Pedro Juliano Cardoso — já "iniciou o tratamento necessário e está em ótima recuperação". Na paralisia facial periférica, o nervo inflama e para de mandar estímulo aos músculos, por isso, a paralisação dos movimentos. Leia mais: Paralisia facial acomete 80 mil pessoas por ano no Brasil A live da dupla, que estava programada para 13 de junho, foi cancelada. A equipe dos artistas informou que uma nova data será anunciada em breve. Esta seria a segunda live apresentada pela dupla. Após o comunicado, outros artistas sertanejos como Loubet, Hugo Pena e Zé Henrique, enviaram mensagens torcendo pela melhora de Fiduma. Initial plugin text Fiduma e Jeca Reprodução/Instagram
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Justice Smith vai a protesto nos EUA com namorado, Nicholas Ashe, e se diz desapontado com manifestantes
Em publicação no Instagram, ator afirmou ter visto 'algumas pessoas dispostas a dizer 'vidas negras importam', mas se calando quando trans/queer era adicionado'. Justice Smith participa de protestos ao lado do namorado, Nicholas Ashe Reprodução/Instagram Justice Smith esteve em manifestações do movimento Black Lives Matter, em Nova Orleans, nos Estados Unidos. Os protestos em resposta à morte de George Floyd acontecem ao redor do mundo desde o ex-segurança foi assassinado por um policial branco que o asfixou ao pressionar o joelho contra seu pescoço por nove minutos sem se importar com protestos de pessoas que o alertaram que ele estava morrendo. Em um manifesto no Instagram, Justice se disse desapontado ao ver "algumas pessoas dispostas a dizer 'vidas negras importam', mas se calando quando trans/queer era adicionado". O ator de Detetive Pikachu, que se declarou queer, esteve nos manifestos acompanhado do namorado, o Nicholas Ashe. "Tem sido meu pilar e minha luz guia", afirmou Justice ao final do texto. "Eu e Nicholas Ashe protestamos hoje em New Orleans. Nós entoamos ‘vidas Negras trans importam, ‘vidas negras queer importam’ e ‘todas as vidas negras importam’. Como um homem negro queer, fiquei desapontado ao ver pessoas dispostas a dizer ‘vidas negras importam’, mas se calando quando trans/queer era adicionado". Initial plugin text "Gostaria de reiterar esse sentimento: se sua revolução não inclui vozes negras queer, então não é antirracista. Se sua revolução está ok em deixar pessoas negras trans como Tony McDade passarem despercebidas para liberar apenas homens negros cisgênero e héteros, ela não é antirracista. Você está tentando lutar contra um sistema designado contra você e depois fechar a porta atrás de você", afirmou o ator. O ator ainda colocou um vídeo onde mostra pessoas caladas durante o protesto. Justice ainda aproveitou o post para se declarar ao namorado. "Há muita tragédia na timeline nos últimos dias, então adicionei algumas fotos minha e de Nic para mostrar um pouco de 'amor negro' e 'amor queer negro'. Você tem sido meu pilar e minha luz guia através desse momento e eu te amo muito."
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Madri reabre museus após três meses com medidas de segurança e visitação com capacidade reduzida
No Museu do Prado, funcionários checam temperatura dos visitantes, que compram ingressos com hora marcada. Visitante observa obra de Pablo Picasso no Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia após reabertura do espaço de arte REUTERS/Juan Medina Moradores de Madri, usando máscaras, ficaram na fila no sábado (6) para estarem entre os primeiros visitantes das famosas galerias da cidade, depois que os museus Prado, Reina Sofia e Thyssen-Bornemisza foram reabertos após três meses de quarentena por causa do coronavírus. "Eu estava ansioso para voltar. Ver como ele voltou à vida me deixa muito emocionado”, disse o estudante de mestrado Alejandro Elizalde, limpando lágrimas do rosto enquanto olhava para o quadro “Las Meninas”, de Diego de Velázquez, uma das pinturas mais famosas do Prado. O governo fechou museus públicos em 12 de março ao impor quarentena ao país para limitar a disseminação do coronavírus. As restrições foram afrouxadas gradualmente. Madri foi um dos lugares que tomou os passos mais lentos em direção a uma abertura porque também foi um dos locais mais atingidos pela doença. O Prado e o Reina Sofia ainda não estão completamente abertos, mas muitas obras de arte, incluindo trabalhos de Velázquez e Goya, no Prado, e “Guernica”, de Picasso, no Reina Sofia, estavam em exibição. Barcelona e Madri iniciam primeira fase de reabertura Medidas de segurança foram implementadas, incluindo distanciamento social, capacidade reduzida e ingressos com hora marcada para os visitantes. Os funcionários checaram a temperatura dos visitantes na entrada do Prado. Muitas pessoas notaram como os museus estavam quietos. Em um sábado normal, esses locais estão entre os que mais atraem turistas em Madri. "Ao mesmo tempo, é um sentimento muito estranho e muito bom porque eu nunca havia visitado o Reina Sofia com tão poucas pessoas", disse a empresária Elena Vázquez. A Espanha até agora registrou 27.134 mortes e 240.978 casos de coronavírus. O país aliviará ainda mais o isolamento em Madri e Barcelona a partir de segunda-feira (8), quando bares e restaurantes poderão receber pessoas no lado de dentro em vez de apenas em terraços ao ar livre. Em mais de metade do país, as boates poderão reabrir, mas não será permitido dançar. O governo sugere que o espaço da pista de dança seja usado para mesas. De máscaras e seguindo medidas de distanciamento social, visitantes observam obras no Museu do Prado, em Madri, durante reabertura do espaço REUTERS/Juan Medina
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Discos para descobrir em casa – ‘A arte maior de Leny Andrade’, Leny Andrade, 1964
Capa do álbum 'A arte maior de Leny Andrade', de Leny Andrade Reprodução ♪ DISCOS PARA DESCOBRIR EM CASA – A arte maior de Leny Andrade, Leny Andrade, 1964 ♪ “Meia-noite. Copacabana. Manhattan Club e a arte maior de Leny Andrade!”. Com essas palavras, o apresentador da boate carioca Manhattan Club – situada na efervescente rota musical do samba-jazz que proliferou pelo bairro de Copacabana no início dos anos 1960 – introduz o show perpetuado em A arte maior de Leny Andrade, segundo álbum da cantora e, sim, também pianista Leny Andrade. Era sintomático que o segundo álbum de Leny de Andrade Lima, carioca nascida em 26 de janeiro de 1943, fosse disco ao vivo gravado em apresentação da cantora em boate de Copacabana. Afinal, tinha sido nesse bairro e cartão-postal carioca, mais precisamente no lendário circuito de boates conhecido como Beco das Garrafas, que Leny Andrade se tornou a sensação a partir de 1959, quando ainda era adolescente de 16 anos e já cantava na noite de Copacabana. Leny era baixinha, mas a estatura da voz deixou imediatamente claro que a cidade do Rio de Janeiro (RJ) estava diante de uma das maiores cantoras do Brasil. E também do mundo que, nas décadas seguintes, se curvaria à arte maior do canto de Leny Andrade nos mais cultuados clubes e nichos do jazz. Já evidenciada na infância, a rara musicalidade da artista seria burilada em aulas de piano, instrumento cujo ensinamento ajudou Leny a afinar e a domar o canto farto. Essa precocidade levou a cantora a gravar alguns singles entre 1958 e 1959, editados por pequenos selos, todos sem a repercussão do primeiro álbum de Leny, A sensação, gravado na RCA-Victor por intermédio de Ivon Curi (1928 – 1995) e lançado em 1961 já no rastro do frisson causado pela cantora nos palcos minúsculos das boates de Copacabana. Dá para entender perfeitamente a razão desse frisson ao escutar o álbum A arte maior de Leny Andrade, gravado em 1963 e lançado em 1964 via Polydor, selo da gravadora Philips. Embora nada na capa indicasse ou ao menos sugerisse tratar-se de registro de show, o LP A arte maior de Leny Andrade foi disco gravado ao vivo de forma pioneira no Brasil. Nesse quesito, o disco de Leny dividiu a primazia com um álbum de Maysa (1936 – 1977) também captado em 1963, em apresentação da cantora no restaurante carioca Au bon gourmet, e lançado em 1964. A dinâmica singular de Leny nos improvisos vocais – scat singing, no dicionário do jazz – saltou aos ouvidos na interpretação de músicas como Baiãozinho (1963), tema então recém-lançado por Eumir Deodato. Baiãozinho foi traduzido para o idioma do samba-jazz na abordagem feita por Leny Andrade com o entrosado toque do trio formado por Tenório Jr. (1941 – 1976) ao piano, José Alves (o Zezinho ou Zé Bicão) no baixo e Milton Banana (1935 – 1999) na marcação leve da bateria manuseada como refinada máquina de ritmo. Tanto a cantora como o trio de samba-jazz tinham bossa. Bossa tratada com a influência do jazz, mas sem deixar de ser essencialmente samba, ritmo dominante no repertório de Leny Andrade (ainda que o bolero ganhasse progressivo terreno na discografia da cantora nas décadas seguintes). Foi com a bossa do fantástico quarteto que o então recente Samba do avião (Antonio Carlos Jobim, 1962) pousou no pequeno palco do Manhattan Club com os graves que a cantora adensaria ao longo de trajetória musical sempre coerente. Na época do LP A arte maior de Leny Andrade, álbum lançado em CD no Japão e lamentavelmente nunca editado no Brasil nesse formato, a voz de Leny Andrade tinia com agudos reluzentes como os dados pela artista ao fim da interpretação de Vai de vez (Roberto Menescal e Luís Fernando Freire, 1963) e no canto de A morte de um Deus de sal (Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli, 1963), composição lançada por Marcos Valle no ano anterior ao lançamento do pioneiro disco ao vivo de Leny. E por falar em Marcos Valle, o repertório do álbum A arte maior de Leny Andrade incluiu Amor de nada (1963), então recente samba da parceria do compositor com o irmão Paulo Sérgio Valle. No toque desse samba Amor de nada, o fraseado jazzístico do piano de Tenório Jr. se harmonizou com o canto de Leny. Esse piano reinou soberano no registro de Embalo (1964) – tema instrumental de autoria de Tenório, músico e compositor carioca – pelo trio de samba-jazz. Sempre seguindo a cadência desse samba derivado da bossa nova, Leny Andrade deu voz no disco a O mar e o amor (Odilon Olyntho e Jorge Omar, 1964), música esquecida nesse disco e que, por isso mesmo, se tornaria rara e pouco ouvida, assim como esse segundo álbum de Leny. A arte maior de Leny Andrade pode não ser o título mais emblemático ou o mais cultuado da discografia da cantora, mas é retrato fiel da fase inicial da artista. Basta ouvir o canto do samba Vivo sonhando (Antonio Carlos Jobim, 1963) – encerrado com citação jazzística do samba-canção Só louco (Dorival Caymmi, 1955) – para perceber a maioridade da cantora de então 21 anos. Alternando passagens intensas e suaves, a abordagem do afro-samba Consolação (Baden Powell e Vinicius de Moraes, 1963) evidenciou a fina sintonia entre cantora e músicos – sincronia merecedora de aplausos eternizados na gravação ao vivo. Na disposição das 12 músicas do álbum A arte maior de Leny Andrade, o afro-samba Consolação foi seguido por número instrumental, Moça flor (Durval Ferreira e Luis Fernando Freire, 1963). Na sequência, apareceu a única música estrangeira do repertório, There will never be another you (Harry Warren e Mack Gordon, 1942), canção norte-americana que se tornara um dos standards do jazz e que, no disco, caiu em suingue que evidenciou a maestria de Milton Banana na condução da bateria. Aditivada com os scats sagazes da cantora, a abordagem da canção There will never be another you provou que, sim, Leny Andrade já se igualava em 1964 com as maiores divas norte-americanas do jazz – com a diferença de que, no Brasil ou no exterior, a artista carioca sempre fez questão de cantar preferencialmente em português. E foi em bom português que a cantora deu show no fim do disco A arte maior de Leny Andrade ao cair com dinamismo inigualável no balanço do samba Influência do jazz (Carlos Lyra, 1962) em interpretação digna das grandes cantoras que fazem do canto uma arte de dimensão eterna.
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J.K. Rowling, autora da série ‘Harry Potter’, é criticada por comunidade LGBT+ após posts em rede social
Ela fez um comentário contrário a um artigo de opinião intitulado 'Criando um mundo mais igualitário pós-Covid-19 para pessoas que menstruam'. Para J.K. Rowling, o termo 'mulheres' deveria ter sido usado, o que gerou protestos da comunidade trans. Escritora britânica J. K. Rowling, autora de 'Harry Potter' Martyn Hicks, One Young World A autora da série de livros "Harry Potter", J.K. Rowling, motivou a raiva de fãs e membros da comunidade LGBT+ na internet mais uma vez neste domingo (7), após uma série de posts no Twitter que estão sendo acusados de transfóbicos no momento em que protestos contra a discriminação acontecem globalmente. As mensagens da autora vieram em resposta a um artigo de opinião do site de desenvolvimento global Devex que a deixou ressentida com o título "Criando um mundo mais igualitário pós-Covid-19 para pessoas que menstruam". "'Pessoas que menstruam'. Tenho certeza de que costumava haver uma palavra para essas pessoas. Alguém me ajude? Wumben? Wimpund? Woomud? [modificações propositais da palavra 'woman', que significa mulher em inglês]", disse Rowling, na noite deste sábado (6). Críticos apontaram que as visões de Rowling igualavam feminilidade à menstruação – sendo que há muitos homens transsexuais que menstruam, e muitas mulheres trans que não. "Consegue escrever um mundo mágico inteiro, mas não consegue entender que homens transsexuais existem? Eu não menstruo desde 2017 – minha feminilidade foi pausada até que eu consiga convocar uma [menstruação]?”, disse a autora britânica e colunista de relacionamentos Beth McColl. Rowling, de 54 anos, disse que seus comentários não tinham o objetivo de ofender a comunidade transsexual, apenas sublinhar que "o sexo é real e tem consequências vívidas". “Respeito o direito de todas as pessoas transsexuais de viverem da maneira que seja autêntica e confortável para elas. Eu protestaria com vocês se vocês fossem discriminados com base em serem trans”, escreveu Rowling. “Ao mesmo tempo, minha vida foi moldada por ser mulher. Eu não acredito que seja odioso dizer isso.” Um porta-voz de Rowling se recusou a fazer outros comentários. A autora britânica já foi criticada por suas visões sobre a comunidade LGBT+ no passado. Em dezembro, ela apoiou uma mulher que foi demitida por tuitar que as pessoas não podem alterar seu sexo biológico. Ela também foi criticada por acrescentar uma relação homossexual à série “Harry Potter” depois que os livros foram publicados. Nos últimos anos, debates entre ativistas transsexuais e feministas discutiram acaloradamente o que é ser mulher. No coração do debate, está se os direitos de mulheres transsexuais são compatíveis com os de outras mulheres, particularmente em relação ao acesso a espaços de um único gênero, incluindo refúgios para mulheres. Cara English, da Gendered Intelligence, uma organização por direitos trans baseada no Reino Unido, afirmou que o momento em que Rowling decidiu reacender este debate, em maio a uma turbulenta luta por igualdade, foi “notável”. “Enquanto supremacistas brancos e seus parceiros sexistas, classistas e fascistas estão sendo desafiados nas ruas, parece notável reacender argumentos mornos e essencialistas contra pessoas trans”, disse English à Reuters. “Vamos nos concentrar não em castigar ou até mesmo nos importar com a negatividade que chega a nós, como comunidade, mas em tornar o mundo um lugar melhor para todos nossos irmãos trans, especialmente nossos irmãos trans negros.” Diante das novas críticas, fãs de Harry Potter também revisitaram um antigo debate sobre a representação negra, asiática e de minoria étnicas em seus livros, com a personagem “Cho Chang” sendo um dos termos mais mencionados. Cho Chang é a única personagem chinesa na série de livros.
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Geraldo Azevedo arma ‘arraiá’ em disco com a base sólida do repertório de Luiz Gonzaga
♪ Durante onze anos, Geraldo Azevedo incrementou o circuito junino do Rio de Janeiro (RJ) com shows no Circo Voador, palco pop e caloroso da cidade. Com repertório dançante e festivo, voltado para os ritmos nordestinos, as apresentações do cantor, compositor e músico pernambucano no Circo – intituladas Arraiá de Geraldo Azevedo – sempre fizeram a festa junina para um público jovem, animado e distante da rota do circuito de shows de São João que movimentam o Nordeste do Brasil. Entrando no clima online das festas de São João em 2020, única saída diante da paralisação do mercado de shows por causa da pandemia do covid-19, o artista lança álbum ao vivo com o registro do show que apresentou no Circo Voador em 5 e 6 de julho de 2019 na 11ª edição do Arraiá de Geraldo Azevedo. Gravado ao vivo com direção e produção musical de Cesar Michiles, o Arraiá de Geraldo Azevedo ficou curto no disco. O repertório alinha somente 14 músicas em 10 números do show. O álbum contabiliza 11 faixas, ao todo, mas uma é versão estendida do medley em tributo ao cantor e ritmista paraibano Jackson do Pandeiro (1919 – 1982), homenagem ouvida duas vezes no disco. Capa do álbum 'Arraiá de Geraldo Azevedo', de Geraldo Azevedo Divulgação Com o coco Sebastiana (Rosil Cavalcanti, 1953) na versão estendida, o medley com Já que o som não acabou (Geraldo Azevedo e Geraldo Amaral, 2007) e O canto da ema (Alventino Cavalcanti, Aires Viana e João do Vale, 1956) anunciou em maio a chegada do álbum Arraiá de Geraldo Azevedo ao mercado fonográfico em 5 de junho. Entre temas autorais como Moça bonita (Geraldo Azevedo e José Carlos Capinan, 1981) e Sétimo céu (Geraldo Azevedo e Fausto Nilo, 1988), além do recente frevo É só brincadeira (Geraldo Azevedo e Zamma, 2019), o cantor armou o arraiá com a base sólida do cancioneiro do compositor pernambucano Luiz Gonzaga (1912 – 1989). Do rei do baião e de outros ritmos da nação nordestina, Azevedo rebobina O xote das meninas (Luiz Gonzaga e Zé Dantas, 1953) e as quadrilhas Olha pro céu (Luiz Gonzaga e José Fernandes, 1951) e São João na roça (Luiz Gonzaga e Zé Dantas, 1952), além de sucessos como ABC do sertão (Luiz Gonzaga e Zé Dantas, 1953) e Sabiá (Luiz Gonzaga e Zé Dantas, 1951).
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