Discos para descobrir em casa – ‘Baihuno’, Belchior, 1993
Capa do álbum 'Baihuno', de Belchior Arte de Belchior ♪ DISCOS PARA DESCOBRIR EM CASA – Baihuno, Belchior, 1993 ♪ “Sessão de nostalgia? Isso é lá com minha tia / Alô, presente, estou chegando / Alô, futuro, já vou”, avisou Belchior em versos da canção Arte final, parceria do artista cearense com Jorge Mello e Gracco. Lançada pelo cantor no álbum Elogio da loucura (1988), Arte final reapareceu cinco anos depois em álbum, Baihuno (1993), em que Antonio Carlos Belchior (26 de outubro de 1946 – 30 de abril de 2017) tentou se fazer presente no mercado fonográfico – mesmo à época já tendo sido posto à margem desse mercado pela implacável indústria do disco – e vislumbrou um futuro. Que não veio. Disco de repertório majoritariamente inédito que rebobinou temas recorrentes no cancioneiro do compositor, cronista das angústias e desilusões de ex-hippies e de migrantes interioranos que se viram sem sonhos e sem dinheiro na selva das cidades, Baihuno foi um dos álbuns mais ambiciosos de Belchior. Já pela capa, criada pelo artista com reprodução de boneco da arte popular do Ceará, foi possível identificar zelo que já vinha escasseando na discografia do cantor revelado em 1971 com single no qual registrou Na hora do almoço, densa canção apresentada em festival daquele ano. Produzido por Jorge Gambier e editado via Movieplay, gravadora de gerenciamento belga que se instalara no Brasil nos anos 1990 para investir no boom do CD, o álbum Baihuno foi o último esforço autoral de Belchior para reeditar o vigor que o artista mostrara ao longo dos anos 1970, década em que se impôs com cancioneiro e com discos relevantes em que expôs a solidão da geração sufocada pela opressão da ditadura e do sistema capitalista – com menção honrosa para o álbum Alucinação (1976), pedra fundamental da obra do cantor. Em Baihuno, disco batizado com vocábulo criado com a junção das palavras baiano (termo jocoso usado por paulistanos em alusão genérica aos povo nordestino) e huno (termo que caracteriza os asiáticos que rumaram para a Europa na Idade Média), Belchior bateu e rebateu na tecla da exclusão social dos migrantes nordestinos nas metrópoles. “Aqui, Nordeste, um país de esquecidos / Humilhados, ofendidos e sem direito ao porvir", denunciou na letra do country Onde jaz meu coração (1984), música que o autor lançara há nove anos em outro álbum, Cenas do próximo capítulo (1984), em que tentou escrever um futuro para si mesmo. Mote das impressões reportadas em Notícia de terra civilizada (Belchior e Jorge Mello), a mais melodiosa das composições inéditas da safra do álbum Bahiuno, a saudade do sertão reverberou ao fim das emoções baratas veiculadas em Ondas tropicais (Belchior e Caio Silvio). Disco conceitual idealizado por Belchior como suíte composta por prólogo, quatro movimentos e epílogo, Baihuno alinhou 16 músicas em 61 minutos. Se a temática das letras soou familiar e por vezes até repetitiva para seguidores de Belchior, o som se caracterizou pela diversidade rítmica. Belchior transitou pelo blues com o toque de grande guitarrista do gênero (Nuno Mindelis) ao fazer o inventário de perdas e danos geracionais em Lamento do marginal bem-sucedido (Belchior), flertou sem jeito com o reggae em Se você tivesse aparecido (Belchior e Gracco), recorreu à batida do rock para vociferar em S.A. (Belchior e João Mouro) contra o desprezo da população vista como pária pelas autoridades – com direito à citação de Eu não sou cachorro, não (Waldick Soriano, 1972) – e incursionou pelo universo da canção radiofônica na vigorosa Balada do amor perverso (Belchior e Francisco Casaverde), denúncia de paixão transmutada em violência. A propósito, Belchior também fez do álbum Baihuno um veículo para propagar insatisfações vivenciadas entre quatro paredes. “Meu bem / Admire meu carro e goze sozinha / Enquanto fumo um cigarro / Mas, cuidado, atenção! / Oh, não vá mais quebrar nenhum coração…”, advertiu, mordaz, em Elegia obscena (Belchior, 1988), música que – tal como a já citada composição Arte final – Belchior reaproveitou do repertório do álbum Elogio da loucura (1988). Disco que apagou qualquer traço ufanista ao expor os tons já desbotados da aquarela do Brasil, Baihuno rasgou os cartões postais já na épica música-título composta por Belchior com Francisco Casaverde. “Trogloditas, traficantes, neonazistas, farsantes, barbárie, devastação / O rinoceronte é mais decente do que esta gente demente do Ocidente cristão”, sentenciou em 1993 no fim da música-título Baihuno com versos que soam impressionantemente atuais em 2020. Voltando na espiral do tempo, Num país feliz (Belchior e Jorge Mello) radiografou a inocência indígena antes da chegada dos colonizadores, prólogo de história de final infeliz, como apontou Quinhentos anos de quê? (Eduardo Larbanois em versão de Belchior) entre questões incômodas feitas por este disco em que Belchior jamais fugiu à luta. Senhoras do Amazonas (1984) – parceria de Belchior com João Bosco que o artista mineiro apresentara nove anos antes no álbum Gababirô (1984) – partiu desse universo indígena para ecoar a devastação ambiental da floresta brasileira, poeticamente apresentada como símbolo do poder feminino. Na conclusão da narrativa do álbum Baihuno, o cantador exaltou a civilidade e a delicadeza em Viva la dolcezza (Belchior e Gracco) no mesmo tom suave com que o trovador migrante se despediu do ouvinte com o tema folk Até mais ver (Belchior em adaptação de poema do russo Serguei Iessienin), chegando com fôlego ao fim de disco caudaloso, por vezes excessivo, mas sempre contundente. Talvez desgostoso com a pouca repercussão de Baihuno, disco editado por gravadora sem munição pesada no exército fonográfico, Belchior nunca mais gravaria outro álbum autoral. Como o futuro não chegou para o artista, Belchior passou a se nutrir do glorioso passado, promovendo sessões de nostalgia da modernidade em série de discos e shows de tom revisionista. Até sumir literalmente antes da definitiva saída de cena, há três anos, em abril de 2017. Foi-se o cidadão latino-americano sem dinheiro no banco e com dívidas. Mas também com obra que permanecerá para sempre na história da música-brasileira. Obra cujo suprassumo ficou concentrado na década de 1970, mas que também abrangeu álbuns coerentes álbuns posteriores como o ambicioso Baihuno.
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Magazine propaga ‘Bafo de jiboia’ para tentar ressuscitar banda sem Kid Vinil
Capa do single 'Bafo de jiboia', da banda Magazine Aline V. P. Belintani ♪ Quando Kid Vinil (1955 – 2017) morreu há três anos, a banda Magazine – que dera projeção ao artista multimídia na primeira metade dos anos 1980 – já estava fora de cena desde 2004. Mas eis que, em movimento surpreendente, a banda paulistana tenta a ressurreição sem Kid Vinil neste ano de 2020. Amostra de EP planejado pelo Magazine através da gravadora Verminose Records, o single Bafo de jiboia tenta em vão fazer graça sem nem de longe roçar o humor irreverente de sucessos como Eu sou boy (Ted Gaz e Aguinaldo, 1983) e Tic tic nervoso (Marcos Serra e Antonio Luz, 1984). Bafo de jiboia é composição de autoria de Marcelo Papini. Com passagens por grupos como Bombom (projetado em 1984 com o hit radiofônico Vamos a la playa, versão de sucesso estrangeiro) e Vexame, Papipi assume o posto de vocalista da Magazine, se juntando aos antigos integrantes Duca Belintani (guitarra), Lu Stopa (baixo) e Trinkão Watts (bateria). Belintani assina a produção musical do single Bafo de jiboia. A título de informação, Bafo de Jiboia é, a rigor, a segunda gravação da banda Magazine sem Kid Vinil. Em 1987, quando Kid decidiu sair do grupo para comandar os Heróis do Brasil, a banda arriscou outro vocalista, Pedrinho, e chegou a lançar single duplo que passou despercebido, provável destino de Bafo de jiboia.
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Lives de hoje: Festival VillaMix em Casa, Alceu Valença, Wanessa e mais shows para ver em casa
Neste domingo (3), Gusttavo Lima, Matheus & Kauan, Leonardo e César Minotti & Fabiano cantam no festival sertanejo. Veja horários e informações sobre os shows. Gusttavo Lima, Alceu Valença e Wanessa fazem lives neste domingo (3) Divulgação, Celso Tavares/G1 Gusttavo Lima, Leonardo, Matheus & Kauan e César Minotti & Fabiano são atrações do VillaMix em Casa neste domingo (3). Alceu Valença, Wanessa e Capital Inicial também fazem transmissões de suas casas. Tulipa Ruiz, Rael e Liniker e os Caramelows encerram 'Festival dos Festivais' Veja a lista completa com horários das lives abaixo. Na onda das lives, o bastidor virou o show. Casas de músicos são os palcos possíveis no isolamento para conter o coronavírus. O G1 fez um intensivão de lives e avaliou os desafios deste formato; leia. Lives hoje e como assistir às lives: Guilherme e Santiago – 14h – Link Lagum – 16h – Link Mariana Cavanellas (Festival Sarará) – 17h05 – Link Luccas Carlos (Festival Sarará) – 17h50 – Link Alceu Valença – 18h – Link Dudu Nobre – 18h – Link Simone – 18h – Link Luedji Luna (Festival Sarará) – 18h35 – Link Agnes Nunes – 19h – Link Rael (Festival Sarará) – 19h20 – Link Capital Inicial – 20h – Link Wanessa – 20h – Link Felipe Cordeiro (Festival Bananada) – 20h05 – Link Boogarins (Festival Bananada) – 20h50 – Link Tulipa Ruiz (Festival Bananada) – 21h30 – Link Liniker e os Caramelows (Festival Bananada) – 22h20 – Link O debate sobre a bebedeira de sertanejos em lives
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Ira! permanece com fôlego no terceiro single do primeiro álbum de inéditas da banda em 13 anos
Balada-rock 'Chuto pedras e assobio' é composição do guitarrista Edgard Scandurra em parceria com Bárbara Eugenia. Capa do álbum 'Chuto pedras e assobio', da banda Ira! Divulgação Resenha de single Título: Chuto pedras e assobio Artista: Ira! Compositores: Edgard Scandurra e Bárbara Eugenia Gravadora: Ditto Music Cotação: * * * * ♪ Terceiro single do primeiro álbum de músicas inéditas do grupo Ira! desde Invisível DJ (2007), disco lançado há 13 anos, Chuto pedras e assobio mostra que a banda paulistana permanece com fôlego renovado após ter sido reagrupada em 2013 pelo vocalista Nasi com o guitarrista Edgard Scandurra. Composição inédita feita em 2010 por Scandurra em parceria com Bárbara Eugenia, Chuto pedras e assobio surgiu na cidade do Rio de Janeiro (RJ) quando o guitarrista do Ira! produzia disco de Eugenia. O assobio que norteia a música – assobio que, mesmo com a devida leveza, tem a força de riff que dá identidade a uma gravação – foi o ponto de partida para a composição, finalizada por Scandurra com Eugenia na coautoria da letra escrita com inspiração na rotina vivenciada por músicos e cantores em turnês longe de casa. “Sempre bem acompanhado de meu eu sozinho / E não penso em mais nada vem ficar comigo / Vai que o mundo acaba, vai que a gente some / Eu caminho pela estrada chuto pedras e assobio”, canta Nasi no tom suave pedido por essa balada-rock. Música tão simples quanto envolvente, Chuto pedras e assobio se juntou na sexta-feira, 1º de maio, aos singles anteriores O amor também faz errar (Edgard Scandurra) – power balada apresentada em 14 de fevereiro – e Mulheres à frente da tropa (Edgard Scandurra). Lançada em 20 de março, essa ode do Ira! ao empoderamento feminino foi apresentada na voz de Scandurra em tom que caberia no clima do álbum ao vivo Ira! Folk (2017). Os três singles do Ira! em 2020 sinalizam que a banda – formada atualmente por Nasi e Scandurra com o baterista Evaristo Pádua e o baixista Johnny Boy – aprontaram álbum honroso sem procurar impressionar ou soar moderna, erro do álbum anterior Invisível DJ. Tudo indica que o Ira! somente quer voltar a soar como o Ira! dos anos 1980 no álbum intitulado Ira – sem o ponto de exclamação – e gravado pela banda quase quarentona no estúdio A9, na cidade natal de São Paulo (SP), com produção musical confiada a Apollo 9. Capa do single 'Mulheres à frente da tropa', da banda Ira! Divulgação
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G1 Ouviu #87 – Como os hinos de louvor invadiram as lives mais vistas do Brasil?
Luan Santana, Priscilla Alcantara, Anitta e Padre Reginaldo Manzotti explicam por que artistas de fora do gospel estão cantando músicas religiosas em suas lives. Você pode ouvir o G1 ouviu no G1, no Spotify, no Castbox, no Google Podcasts ou no Apple Podcasts. Assine ou siga o G1 Ouviu para ser avisado sempre que tiver novo episódio no ar. O que são podcasts? Um podcast é como se fosse um programa de rádio, mas não é: em vez de ter uma hora certa para ir ao ar, pode ser ouvido quando e onde a gente quiser. E em vez de sintonizar numa estação de rádio, a gente acha na internet. De graça. Dá para escutar num site, numa plataforma de música ou num aplicativo só de podcast no celular, para ir ouvindo quando a gente preferir: no trânsito, lavando louça, na praia, na academia… Os podcasts podem ser temáticos, contar uma história única, trazer debates ou simplesmente conversas sobre os mais diversos assuntos. É possível ouvir episódios avulsos ou assinar um podcast – de graça – e, assim, ser avisado sempre que um novo episódio for publicado G1 ouviu, podcast de música do G1 G1/Divulgação
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Villa Mix em Casa: 2ª edição do festival acontece neste domingo com Gusttavo Lima e mais sertanejos
Matheus e Kauan, Leonardo e César Menotti e Fabiano completam o time de artistas para a nova live. Gusttavo Lima, Leonardo, César Menotti & Fabiano e Matheus & Kauan vão cantar no Villa Mix em Casa neste domingo (3) Divulgação O Villa Mix em Casa ganha uma segunda edição neste domingo (3). A primeira edição, que aconteceu em 5 de abril, contou com mais de 10 horas de música. Desta vez, as atrações são Gusttavo Lima, Matheus e Kauan, Leonardo e César Menotti e Fabiano. A ordem e os horários de cada atração ainda não foram anunciados. O festival em casa terá início às 16h e a transmissão acontece pelo canal oficial do YouTube. Link. Segundo a produção do festival, a estrutura montada no interior de Goiás, foi "idealizada de forma extremamente consciente, evitará a aglomeração dos profissionais presentes para a produção da live, garantindo a segurança de todos os envolvidos nesta ação beneficente". Nesta transmissão, as doações serão destinadas para AACD e o Hospital de Amor.
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Discos para descobrir em casa – ‘O canto jovem de Luiz Gonzaga’, Luiz Gonzaga, 1971
Capa do álbum 'O canto jovem de Luiz Gonzaga', de Luiz Gonzaga Reprodução ♪ DISCOS PARA DESCOBRIR EM CASA – O canto jovem de Luiz Gonzaga, Luiz Gonzaga, 1971 ♪ Principal difusor do baião, Luiz Gonzaga do Nascimento (13 de dezembro de 1912 – 2 de agosto de 1989) reinou no Brasil nacionalista da década de 1940. Tanto que a sanfona se tornou o instrumento preferencial de jovens dos centros urbanos que queriam aprender como se tocava o baião, o xote e outros ritmos da nação nordestina. Abalado com os ventos da modernidade que sopraram no Brasil e na música do país ao longo dos anos 1950, bafejados com a chegada de Juscelino Kubitschek (1921 – 1976) à presidência em 1956, o reinado do cantor, compositor e sanfoneiro pernambucano foi implodido em 1958 com a revolução detonada por João Gilberto (1939 – 2019). A invenção da bossa nova conduziu o violão e o intimismo ao poder musical, injustiçando Gonzaga e toda a geração de astros iluminados pela era do rádio, tachada de cafona em ação radical e elitista que se provaria equivocada e precipitada com o decorrer do tempo. Luiz Gonzaga jamais foi abandonado pelo povo nordestino, súdito mais refratário às modas e modismos impostos pelo eixo Rio-São Paulo. Mas perdeu espaço nesses centros culturais em rejeição ampliada nos anos 1960 e que somente começaria a ser revertida no início da década de 1970. É nesse contexto que o álbum O canto jovem de Luiz Gonzaga, lançado em 1971, se mostrou relevante na trajetória fonográfica do cantor, quase inteiramente vivida na gravadora RCA. O maestro Rildo Hora, na época um dos produtores atuantes na RCA, orquestrou esse disco para conectar a voz de Gonzaga aos cancioneiros de compositores que haviam emergido no universo da MPB, a maioria projetada em escala nacional na segunda metade dos anos 1960 nas plataformas dos festivais. A imagem do artista na capa do LP já traduzia a intenção de O canto jovem de Luiz Gonzaga, álbum nunca lançado em CD, mas disponível em edição digital que erroneamente credita o disco a 1981 ou a 1982. Sem o tradicional chapéu de vaqueiro e sem a sanfona, indumentárias então indissociáveis da figura cristalizada do artista, Gonzaga apareceu na capa com imagem mais urbana que, de certa forma, contrariava o tom do disco. A rigor, a mudança foi mais simbólica, tendo sido operada essencialmente na abertura do leque de compositores gravados pelo cantor de voz grave. Os compositores, sim, eram jovens. Já o repertório (bem) selecionado manteve Gonzaga associado ao universo musical e/ou temático do sertão nordestino. Introduzida por vozes de romeiros em oração, Procissão (Gilberto Gil e Edy Star, 1965) passou pelo álbum com naturalidade no canto já maturado de Gonzaga. Como velho boiadeiro, Gonzaga também seguiu em segurança por Caminho de pedra (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1958), outro exemplo do acerto do repertório gravado com o toque de músicos como o baixista Sérgio Barroso. Aberto com Chuculatera, título menor do cancioneiro de Antonio Carlos e Jocafi (dupla então no auge naquele ano de 1971), o álbum O canto jovem de Luiz Gonzaga soou menos festivo e forrozeiro no confronto com os discos anteriores do artista, sem promover ruptura radical. Entre a estilização folclórica de Cirandeiro (Edu Lobo e José Carlos Capinan, 1967) e o lamento retirante de No dia que vim-me embora (Caetano Veloso e Gilberto Gil, 1968), abordado por Gonzaga com pungência e com a propriedade de quem já seguira rota migratória do sertão para as capitais, o pai musical da nação nordestina se reconciliou no disco com o filho Luiz Gonzaga Jr. (1945 –1991), o Gonzaguinha. Gonzaguinha fez dueto com o pai na regravação simbólica de Asa branca (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, 1947), toada também ruminada pelo então exilado Caetano Veloso naquele ano de 1971 em gravação feita para álbum londrino que ajudou a motivar o público da MPB a escutar Luiz Gonzaga com ouvidos mais abertos. Então no início da carreira de cantor e compositor, Gonzaguinha ainda contribuiu com a então inédita canção Morena para o repertório do álbum O canto jovem de Luiz Gonzaga. Ao reverberar o lamento de Vida ruim (Catulo de Paula, 1962), Gonzaga reiterou o tom menos animado deste disco renovador. Em contrapartida, o chamado da sanfona de Chiquinho do Acordeom (1928 – 1993) soou arretado na feitura de O milagre (Nonato Buzar, 1967) e no recado de Fica mal com Deus (1963), composição de Geraldo Vandré, artista então amaldiçoado pela ditadura. A propósito, o álbum O canto jovem de Luiz Gonzaga carregou o simbolismo político de conectar artista por vezes associado à direita com a música de compositores de esquerda, alguns exilados pelo governo militar que tentava calar vozes dissonantes do regime ditatorial. Acima de ideologias, a beleza de O cantador (Dori Caymmi e Nelson Motta, 1966) na voz do artista evidenciou o poder que emanou do canto de Luiz Gonzaga neste disco gravado com Nelson Angelo ao violão e com arranjos de maestros como Guerra-Peixe (1914 – 1993) e Luiz Eça (1936 – 1992). No arremate do álbum, Gonzaga se reaproximou do parceiro Humberto Teixeira (1915 – 1979), autor do baião Bicho, eu vou voltar, música de letra autorreferente em que o Rei do baião aludia ao fato de estar sendo revalorizado pela geração de compositores da MPB. A alusão ao momento de redescoberta também foi feita na voz de Humberto Teixeira no canto falado com o qual o parceiro de Gonzaga na composição de Baião (1946) – música (definidora de um estilo e de uma época) que completava 25 anos em 1971 – encerrou a faixa e o álbum O canto jovem de Luiz Gonzaga. Sim, Luiz Gonzaga voltou. E voltou para curtir, como avisou já no título do concorrido show que apresentou em 1972, na cidade do Rio de Janeiro (RJ), consolidando o vitorioso movimento de rejuvenescimento proposto pelo disco lançado em 1971. E ficou claro para o Brasil, desde então, que o canto de Luiz Gonzaga, mais do que jovem ou velho, já era eterno.
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Jards Macalé volta para curtir em live feita com violão, estranhezas e irritações
Jards Macalé em live solidária em favor da causa '#unidos pela música brasileira' Reprodução / Vídeo Resenha de live – Festivais Carambola e SeRasgum Artista: Jards Macalé Data: 2 de maio de 2020, das 22h20m às 23h05m Cotação solidária: * * * * * ♪ “Fala alto, porra! Fica cochichando, aí eu não escuto”, se irritou Jards Macalé, quando começara a cantar o samba Antonico (Ismael Silva, 1950), ao ficar sem entender a instrução que lhe estava sendo passada de interlocutor oculto nos bastidores da segunda live do artista carioca, que já se apresentara em 21 de março no pioneiro festival #tamojunto, organizado pelo jornal O Globo. “Falta cinco minutos?!! Esse negócio mal começou…”, dissera momentos antes para o mesmo interlocutor ao ser informado de que em breve teria que encerrar a apresentação que fazia na noite de sábado, 2 de maio, dentro da programação conjunta dos festivais Carambola e SeRasgum. Diante do embaraço, Macalé nem terminou de cantar Antonico, o samba com o qual iria reforçar o incentivo de doações para profissionais sem renda por conta da paralisação do mercado de shows. Sem fazer tipo ou gênero na live transmitida de Penedo, bairro do município fluminense de Itatiaia (RJ) onde o artista está em isolamento social, Macalé encarnou o anjo torto mencionado na letra de Let's play that (Jards Macalé e Torquato Neto, 1972), uma das 13 músicas encadeadas pelo cantor no roteiro de live feita com voz, violão e as estranhezas e irritações típicas desse artista orgulhosamente desafinador do coro dos contentes. Macalé em live feita no formato voz & violão na noite de sábado, 2 de maio Reprodução / Vídeo Aberta com Só morto (Burning night) (Jards Macalé e Duda Machado, 1969) e encerrada com citação de verso do samba Juízo final (Nelson Cavaquinho e Élcio Soares, 1973), a live de Macalé transcorreu no tom dissonante do artista. Entre golpes rudes no toque do violão, marca de músicas como Hotel das estrelas (Jards Macalé e Duda Machado, 1970), Macalé reconstruiu o movimento rítmico dos barcos em Vapor barato (Jards Macalé e Waly Salomão, 1971) e remoeu Mal secreto (Jards Macalé e Waly Salomão, 1971) antes de abrandar o canto e o toque do violão para apresentar Corcovado (Antonio Carlos Jobim, 1960) em registro melodioso. Antes, quando foi cantar músicas do álbum Besta fera (2019), Macalé revelou que a gestação do disco começara justamente na casa de Penedo em que se confinou para evitar a contaminação pelo covid-19. Do repertório do álbum, o anjo torto deu voz a Trevas (música dos anos 1970 finalizada pelo autor para ser gravada em Besta fera) e a Obstáculos (Jards Macalé, 1969), composições sombrias, em sintonia com o estado de espírito do mundo diante da pandemia do coronavírus. Na sequência, Macalé pediu para o público invisível aos olhos do artista fazer coro no refrão de Revendo amigos (Jards Macalé e Waly Salomão, 1972), música de pegada nordestina evocada pelo toque do violão do músico. “Estou ouvindo as palmas do alto da montanha. Não mereço tanto…”, gracejou, espirituoso, ao fim do número. Eterno anjo torto, Jards Macalé voltou para curtir na segunda live da carreira.
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Mart’nália participa do álbum que Bebel Gilberto lança em agosto
Bebel Gilberto e Mart'nália em estúdio na gravação da música 'Na cara' Reprodução vídeo / Instagram Bebel Gilberto ♪ Em agosto de 2019, Bebel Gilberto se encontrou com Mart'nália em estúdio de Nova York (EUA). Em passagem pela cidade norte-americana, a cantora carioca gravou participação em duas músicas do sexto álbum solo de estúdio de Bebel, Agora, programado para ser lançado em 21 de agosto. Mart'nália gravou dueto com Bebel na faixa Na cara – composição na qual Mart'nália é parceira de Bebel, tendo colaborado na escrita da letra – e pôs vocal em outra música, Raio, do repertório inteiramente autoral do álbum Agora. Precedido pelos singles Deixa e Bolero, ambos já lançados com músicas compostas por Bebel com o pianista norte-americano Thomas Barlett (a segunda com a adesão de Jennifer Charles), o álbum Agora é o primeiro disco de estúdio e de músicas inéditas de Bebel Gilberto desde Tudo (2014). Barlett assina a produção musical do álbum Agora.
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Luan Santana elogia lives: ‘Quem é desafinado é desafinado. Não tem programa pra afinar a voz, né?’
Ao G1, ele conta que pandemia adiou reunião de planejamento da carreira internacional, mas está estudando espanhol. Cantor também fala de sua relação com música cristã; ouça entrevista. Luan Santana teve que cancelar uma reunião em Miami, para falar de carreira internacional, por causa da pandemia da Covid-19. Teve também que trocar os shows lotados por uma live no jardim de sua mansão em Alphaville, na Grande São Paulo, onde está com a família. O show no YouTube, no fim de abril, foi a segunda live dele. Antes, fez uma apresentação religiosa no Instagram, em março, com convidados. "Eu falei: 'As pessoas precisam de calma. Eu quero chamar alguém que passe calma, paz pras pessoas que vão ver'. Eu sou um grande amigo do Padre Fábio, né? Foi o primeiro nome que eu liguei." Em entrevista ao G1, por telefone, Luan falou ainda sobre o que está fazendo durante o isolamento social (basicamente, lendo livros, estudando espanhol e vendo lives). Ouça entrevista no podcast acima e leia a conversa abaixo. Luan Santana canta em sua primeira live no YouTube Reprodução/Canal oficial do artista G1 – Você sempre quis cantar para cada vez mais gente… Mas pela primeira vez na carreira, você tem que lidar com o que a gente vive agora, de fazer algo legal, mas sem aglomeração. Como você fez sua live pensando nisso? Luan Santana – Esse foi o principal desafio, né cara? Apesar que esse momento é um momento muito íntimo que a gente vai entrar na casa das pessoas e que elas estão juntas, a família está junta e precisa se sentir abraçada pela nossa música. O importante é fazer isso e regado às doações, ao lance de ajudar as pessoas. Falando de cenário e de estrutura, é o jardim da minha casa. O cenário é todo natural, ao invés de usar leds, equipamentos de iluminação e de projeção de efeito especial… eu usei só coisas naturais, com as flores e tal. E pra captação de vídeo não sei te dizer quantas pessoas tinha, mas foi o mínimo possível pra uma transmissão de imagem com qualidade de som e imagem. G1 – Uma coisa que é comum nas lives é que as famílias ajudam. Aconteceu com o Dennis DJ, com Sandy & Junior… Como a sua família te ajudou? Luan Santana – No meu caso, foi o meu roadie, né? Aquela pessoa que fica levando toalhinha, água, todas as coisas… Minhas roadies foram a Jade [noiva] e a Bruna, minha irmã. Na churrasqueira, fazendo um churrasquinho pra gente, estava o meu primo. A minha mãe também ficou fazendo umas outras coisas ali. É muito importante a gente passar um bom exemplo, além de cuidar dos nossos, né cara? Eu acho que a gente passa por um momento bem delicado que a gente tem que pensar certinho, antes de fazer as coisas. Eu já estou com mil ideias na minha cabeça pra próxima. G1 – Você teve chance de ver muitas lives, antes de fazer a sua. E você viu lives com aglomeração, viu várias ideias sendo postas em prática… Você viu bem o que cada artista estava fazendo para pensar no que poderia funcionar ou não? Luan Santana – Eu acho que a live, esse gênero, esse modo live é uma oportunidade de a gente ser a gente mesmo. É algo que eu sempre pensei: "eu preciso ser eu mesmo". Quem eu sou? O que é que eu vou falar? Qual vai ser o meu discurso? Que sentimento eu vou passar, vai ser de uma coisa engraçada, vai virar vários memes cômicos… O que eu quero transmitir? Pensei em estar ali com minha família e no máximo dois músicos. Quero evitar aglomerações, me divertir acima de tudo. A gente separou um repertório de 52 músicas [risos] e vamos ver se a gente estende. E aí no meio da live, eu falei "Depois de cinco minutos, vou voltar". Era como se fosse um clube secreto, ali, sabe? Voltamos sentados, com a imagem paradinha ali, só fazendo um modão que é algo que faz parte da minha infância e da minha formação musical. Foi muito genuíno e sincero. Luan Santana Divulgação G1 – Sua primeira live foi uma live gospel no Instagram. Por que você decidiu fazer essa primeira live com músicas religiosas? Luan Santana – Foi naquele primeiro momento, né cara? Em que a pandemia se espalhou e todo mundo começou a ficar em casa. Se não me engano, eu acho que eu fui o primeiro que fez live, no Instagram. E aí eu falei: "O que as pessoas precisam agora, como a gente pode ajudar, qual a forma mais efetiva de chegar no coração das pessoas e acalmar todo mundo, né?" Hoje em dia, não que esteja calmo, mas as pessoas já entenderam. Eu falei: "As pessoas precisam de calma. Eu quero chamar alguém que passe calma, paz pras pessoas que vão ver". Eu sou um grande amigo do Padre Fábio, né? Foi o primeiro nome que eu liguei. Logo depois, liguei pro Deive Leonardo e pro André Valadão [pastores]. E foi uma comoção essa live. Tanto pra mim, quanto pras pessoas que assistiram. Porque foi emocionante, eu acho que foi de muito bom tom assim e as pessoas tiraram muito proveito das coisas que a gente disse, das músicas que a gente cantou. Causou um efeito muito lindo. G1 – Como é a sua ligação com música religiosa? Tinha costume de ir a cultos, missas na infância e na adolescência? Luan Santana – Minha ligação é total, cara. Antes de eu começar a fazer show, antes de ter uma carreira, eu tocava na igreja, eu aprendi a tocar violão pra tocar na igreja. Então, eu conheço muita coisa de música religiosa. Não é algo que é fora do meu mundo. "Eu estudei em colégio católico, né? E participava dos grupos e tocava nas missas direto, toda semana. É um ambiente que eu me sinto muito confortável. Que eu posso dizer com propriedade." Veja os melhores momentos do show de Luan Santana no Festival de Inverno Bahia G1 – O que você quer fazer na segunda live? O que acha que tem que repetir e quer fazer de mais diferente? Luan Santana – O meu sonho era conseguir juntar os meus músicos, cara. Juntar, mesmo que separados. Eu falo de bateria e todo mundo que costuma fazer os shows comigo na estrada. Eu estou tentando achar um jeito. Antes de te ligar, eu tive uma outra ideia que me veio na cabeça. Mas estou naquela fase de brainstorm ainda comigo mesmo. Pensando em algum jeito de ser diferente das outras lives e que se encaixe dentro do que a gente precisa hoje em dia que é de evitar aglomeração e tal. G1 – Você tem visto muita live, até quem não via muito show na TV está vendo, então imagino você que já acompanhava tanto… Quais você gostou mais? Luan Santana – Uma que eu adorei foi a da Ivete, da Sandy & Junior, eu também adorei. Eu estou vendo todas e tenho gostado muito. Porque ali eu vejo muito o artista sendo ele mesmo, sabe? Sem nenhuma carapuça, sem nenhuma armadura, não tem edição. É no "entre" das coisas que a gente conhece a pessoa. "Eu acho legal a live porque não tem máscara, né cara? Você faz a sua música, do seu jeito, não tem nenhum tipo de programa pra afinar sua voz, né? [risos] Quem é desafinado é desafinado mesmo. E vão bora. Isso é o mais legal de tudo. É o que as pessoas gostam de ver." Caminhão com alimentos doados na live de Luan Santana chegam ao Complexo do Alemão, no Rio Reprodução/Redes Sociais G1 – Falando do seu Instagram, queria saber por que você escolheu aquele trecho do Manoel de Barros? Luan Santana – Eu acho que tirei, cara, essa bio aí. Mas era "Uso a palavra para compor meu silêncio". Acho que tem tudo a ver com compositor isso aí. Eu que gosto de escrever, que eu faço a maioria das minhas músicas. Eu acho que é no silêncio que você acaba fazendo a música, que a inspiração vem. Eu uso a palavra para compor o meu silêncio. Tinha tudo a ver com a minha história. Eu já troquei, mas eu gosto muito de ler. Agora estou estudando espanhol, lendo pra praticar. Estou também lendo outro que chama "O nome do vento", eu tô no segundo, né? Chama "O temor do sábio", que é uma trilogia [saga "A Crônica do Matador do Rei", do americano Patrick Rothfuss]. G1 – Eu lembro que você era muito fã de Harry Potter, quando era mais novo, né? Luan Santana – Eu ainda sou, cara. Eu acho a filosofia do Harry Potter incrível, incrível mesmo. Quando a gente para e analisa a fundo a história e o que ela pode significar pra gente, é uma história muito mais complexa do que as pessoas acham. Então, é algo que eu gosto muito até hoje. G1 – Voltando ao espanhol, esses livros que você falou são de ficção ou livros didáticos para estudar o idioma? Luan Santana – Eu tenho dois livros aqui e ainda não comecei nenhum deles. Um é de terror, mas esqueci até o nome, cara. Mas é um terror antigo. E o outro é um romance que eu também não me lembro do nome. Mas é de forma mais didática. O meu objetivo principal é aprender a língua. Os livros não devem ser tão legais assim, não. Pela capa, né? Se bem que não se pode julgar pela capa. [risos] Ainda vou experimentar. G1 – Agora tenho que te perguntar se estudar espanhol tem a ver com carreira… "Eu estou recebendo muitos convites, propostas, tanto de artistas, quanto da parte de administração de carreira e tal, de gravadoras. Já tivemos boas conversas, pelo menos umas três idas pra Miami, pra fazer reunião e tal. E as pessoas demonstrando muito interesse." Eu vi a necessidade de me preparar. No inglês, eu sou um pouquinho mais avançado do que o meu espanhol [o único single em inglês da carreira, "Best day of my life", foi trilha da Olimpíada do Rio]. Então eu quis pelo menos igualar o espanhol com o meu inglês, pra depois aprender as coisas de fato. G1 – Quais planos você interrompeu e o que fez para repensar? Luan Santana – Essa aí era uma né, cara [carreira internacional]. Essa ida pra Miami era para fechar algumas coisas. G1 – Você estava com passagem comprada, teve que desmarcar viagem? Luan Santana – Eu estava com passagem comprada pro Kentucky [estado americano]. A gente ia fazer uma publicidade lá nos Estados Unidos, numa fábrica de uísque… A gente ia aproveitar e fazer uma reunião na Flórida [estado onde fica Miami] para já adiantar as coisas. Mas daí a viagem foi cancelada por causa da pandemia e até agora não marcamos de novo. G1 – Você aproveitou essa pausa para pensar em versões das suas músicas para o espanhol ou inglês? Talvez as suas mais românticas tenham a ver com esse mercado latino romântico. Luan Santana – É uma dúvida que eu tinha, mas é muito diferente pegar "Meteoro" e transformar em outra língua não é tão simples, né? As pessoas têm outro tipo de formação musical lá fora. Então, não são todas as músicas que eu já gravei que é só gravar em outra língua, só traduzir que vai dar certo. É mais uma questão entre produtor e artista, de ver caminhos, descobrir um som que seja diferente, que as pessoas gostam. É muito mais complexo do que simplesmente pegar minhas músicas e transformar em outra língua.
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