‘Manda nudes’: a busca por prazer na internet durante a quarentena
Sem a possibilidade de encontros devido à pandemia, pessoas recorrem a nudes e conteúdo pornô nas redes sociais como forma 'descarregar a tensão sexual' e se 'sentirem desejadas', dizem especialistas. Com isolamento, consumo e compartilhamento de conteúdos sexuais vêm aumentando. Cauê Fabiano/G1 "Nudes e um copo de água não se nega a ninguém". Assim a estudante de medicina Luma*, de 19 anos, deu pistas, em uma rede social, de como lidaria com vontades sexuais neste período de isolamento social. Sem sair de casa há 25 dias por causa da pandemia de coronavírus, a jovem paranaense que costumava frequentar baladas no fins de semana e manter parceiros sexuais regulares não teve muita opção. "É o tal do tesão acumulado. Como não tem como ver a pessoa pessoalmente, a melhor coisa é interagir pela internet, mandando foto, entrando numa ligação. Dá para matar um pouco a vontade", conta a jovem, que passa o período de quarentena em casa com a irmã, em Foz do Iguaçu. A atitude de Luma dialoga com os conselhos que estão vindo de todos os cantos do mundo. Em Nova York, a prefeitura divulgou um guia em que sugere a masturbação como melhor forma de evitar o contágio. "Você é seu parceiro sexual mais seguro", diz o comunicado. O Ministério da Saúde da Colômbia, por sua vez, orientou pessoas que não estão em um relacionamento fixo para adiar os encontros ou optar pelas relações virtuais. No Brasil, o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, liderado pela ministra Damares Alves, divulgou uma cartilha em que aconselha profissionais do sexo a fazer atendimento online. Com um isolamento que atinge bilhões de pessoas no mundo inteiro, o consumo e o compartilhamento de conteúdos sexuais vêm aumentando. Acessos ao site PornHub, por exemplo, uma das principais plataformas de vídeos adultos do mundo, chegaram a crescer 28,9% no Brasil em relação à média diária, no último dia 29 de março, que registrou o pico na curva de ascensão. No índice mundial, o crescimento foi de 24,4%, segundo dados do próprio PornHub. No Twitter, uma das poucas redes sociais que permitem o compartilhamento público de conteúdo adulto, hashtags que estimulam o compartilhamento de fotos sensuais, nudes ou a paquera apareceram entre os assuntos mais comentados da plataforma no Brasil, nas últimas semanas. "Vamos agitar essa quarentena, me enviem fotos para avaliar", comentou uma jovem que pedia imagens a usuários masculinos da rede social. Descarregar a tensão Para a sexóloga Ana Canosa, membro da diretoria da Sociedade Brasileira de Sexualidade Humana (SBSH), esse movimento é natural. "A sexualidade é uma fonte de prazer importante para a vida humana e você pode obtê-lo sozinho, não precisa do outro. Num momento como esse, de isolamento, usar as ferramentas de tecnologia para essa busca é comum", diz. O uso de celulares para fins de paquera e sexo não é um fenômeno novo, alertam os especialistas. Mas, sem opção do encontro "carne e osso" devido à pandemia, pessoas que até então não se interessavam por esse tipo de uso da tecnologia acabam experimentando. "As pessoas já usavam a tecnologia para a descarga da tensão sexual e algumas até preferem mesmo as relações virtuais. Mas a satisfação é individual. Para quem gosta do encontro offline com o parceiro, não vai ser uma substituição, apenas uma forma de descarregar a tensão sexual daquele momento", lembra Canosa. É o caso de Luma. Na quarentena, a jovem está fazendo com frequência algo que não fazia parte de sua rotina. Antes, ela conta que não compartilhava tanto conteúdo sexual com seus parceiros. "Agora, quando bate a vontade, eu já chamo para aquele papinho mais quente. Nada supera a conexão do calor humano, mas já ajuda a não surtar". O sociólogo Richard Miskolci, professor no Departamento de Medicina Preventiva e em Saúde Coletiva da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), ressalta que, por trás do isolamento social há uma questão de saúde pública que afeta o imaginário das pessoas, inclusive em termos eróticos e sexuais. "O medo de se contaminar tende a ser maior que o desejo de contato físico, mas não inibe tampouco supre a necessidade de ser reconhecido como atraente ao outro", explica. O prazer de ser desejado Foi numa brincadeira em que pedia "nudes para avaliação" que o estudante de rádio e TV Luiz*, de 28 anos, começou a receber centenas de imagens de pessoas nuas em seu perfil no Twitter, em 2016. Naquela época, impressionando com a quantidade de homens que queriam se expor, o mato-grossense resolveu criar um perfil para concentrar e divulgar essas fotos. "É um jogo de avaliação e prazer", diz o criador da hashtag que vem aparecendo com frequência entre as mais comentadas na rede social. Luiz conta que, desde início do período em que as pessoas começaram a adotar o isolamento social, os números do perfil dispararam. Se antes recebia cerca de 100 fotos quando lançava a hashtag para a "disputa", agora recebe mais de 400. Os seguidores cresceram quase 100%, chegando a mais de 250 mil. "Parece que está todo mundo à flor da pele, muita gente pedindo para a gente compartilhar conteúdo. A minha ideia tem a ver com a exposição, e as pessoas gostam de receber avaliação", explica Luiz. Para o sociólogo Richard Miskolci, as conclusões fazem sentido. "É um desejo de ser desejado, amado, confortado em tempos de incerteza e solidão que nos fragiliza e faz sentir mais vulneráveis, inclusive em termos afetivos", opina. O antropólogo Horácio Sívori, coordenador do Centro Latino-Americano em Sexualidade e Direitos Humanos (Clam) da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), vai além e destaca que "no meio da catástrofe, o flerte, o sexo online, o pornô, a própria troca de nudes, podem não ser apenas formas de entretenimento, de combater a solidão, mas também de cuidar uns dos outros como coletivo." Os especialistas ressaltam, entretanto, que o significado da troca de nudes será bem diferente para pessoas de diferentes gerações, idade, gênero, orientação sexual e raça. "Nem todo mundo estará em condições de participar de determinadas práticas do mesmo modo", lembra Sívori. Internet e o 'sexo seguro' A busca de meios tecnológicos para paquera, parceiros sexuais e amorosos também tem a ver com o histórico de epidemias. De acordo com Richard Miskolci, as pesquisas mostram que foram os segmentos sociais que sofriam mais restrição a paquerar em público no passado que primeiro usaram a internet com esse fim, como homossexuais e mulheres. Na época da epidemia da Aids, nos anos 1980 e 1990, homens gays passaram a se utilizar bastante de meios de paquera como os classificados nos jornais e revistas e os serviços telefônicos. Com a chegada da internet comercial, em 1995, os bate-papos e os sites de busca de parceiros também ganharam impulso. "Isso se devia principalmente por que homens 'fora do meio' evitavam frequentar espaços de sociabilidade LGBT." "Agora também há um incentivo – não mais restrito a apenas um ou outro segmento social – a usar os meios tecnológicos disponíveis para vivenciar o erotismo com segurança em tempos em que o contato físico está interditado. Trata-se de algo compreensível e com precedente histórico", explica Miskolci. O fenômeno que seria mais recente, diz o sociólogo, é a expansão do uso de serviços de rede social não especializados para o mesmo fim. Ou seja, em vez de usar o Tinder, por exemplo, mais pessoas usam o Instagram, o Twitter e até o Facebook para paquera. A sexóloga Ana Canosa alerta, entretanto, que não pode esquecer que "não há controle sobre o conteúdo compartilhado com os contatos". "Tem que ter cuidado para quem manda foto, com fotos mostrando rosto e com os dispositivos compartilhados com a família". Para o cenário pós-pandemia, a especialista visualiza a oportunidade de se aproximar – e fazer sexo – com pessoas com quem foram criados laços mais fortes. "As pessoas estão alimentando esse tesão e têm a oportunidade de se fazer conhecer mais intimamente". Já para Miskolci, o tempo de conversas online pode mostrar um "outro caminho" nessas relações. "Isso pode restaurar o interesse por afinidades para além das eróticas e sexuais, de maneira que o adiamento do encontro sexual traga até vantagens. Mas, apenas pesquisas a posteriori poderão avaliar o que agora se passa agora", conclui.
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Lives na quarentena: Alessia Cara e CeeLo Green são anunciados para festival da ‘Billboard’
Revista divulgou atrações de shows transmitidos pela web no festival 'Billboard Live At-Home'. Lives acontecem desta segunda (13) a sexta (17); veja lista. Alessia Cara com o Grammy de Artista Revelação REUTERS/Carlo Allegri Alessia Cara, CeeLo Green e outros cantores vão participar nesta semana do festival de lives "Billboard Live At-Home". As apresentações acontecem desta segunda-feira (13) a sexta-feira (17). A revista dos EUA disse que os shows vão acontecer na casa dos artistas e que serão arrecadadas doações durante as transmissões. Veja a programação: Segunda (13): Arthur Hanlon – 14h Grouplove – 16h Terça (14): Rebecca Black – 14h CeeLo Green – 16h Leslie Odom Jr. – 18h Quarta (15) David Archuleta – 14h Ella Henderson – 16h Quinta (16): Lee Brice – 14h Colbie Caillat – 16h Grace VanderWaal – 18h Sexta (17): Pete Yorn – 14h Alessia Cara – 16h
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Âncora do ‘Good Morning America’, George Stephanopoulos, é diagnosticado com Covid-19
Apresentador de um dos programas matinais mais tradicionais dos EUA diz que não tem sintomas, mas fez teste após sua mulher contrair a doença. George Stephanopoulos, um dos apresentadores do 'Good Morning America' Divulgação / ABC George Stephanopoulos, âncora do programa "Good Morning America", disse nessa segunda-feira (13) que contraiu Covid-19, mas não apresentou sintomas. O "Good Morning America", da rede de TV ABC, é um dos programas matinais mais tradicionais e populares dos Estados Unidos. George Stephanopoulos diz que fez o teste após sua esposa, Ali Wentworth, apresentar sintomas e testar positivo. Ele diz que, no entanto, ela está se sentindo melhor.
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Moraes Moreira morre aos 72 anos, no Rio de Janeiro
Conforme assessoria do artista, ele morreu nesta segunda-feira (13), por volta das 6h, após sofrer um infarto agudo do miocárdio. Informações sobre velório não serão divulgadas. Cantor Moraes Moreira morre aos 72 anos O cantor e compositor Moraes Moreira morreu na madrugada desta segunda-feira (13) aos 72 anos, em casa, no bairro da Gávea, no Rio de Janeiro. Conforme a assessoria do artista, ele morreu por volta das 6h depois de sofrer um infarto agudo do miocárdio. VÍDEOS: Relembre a carreira do artista Confira fotos da carreira de Moraes Moreira Veja repercussão da morte do cantor Segundo Eduardo Moraes, irmão do cantor, o corpo de Moraes Moreira foi encontrado após a chegada da empregada doméstica no apartamento em que ele morava. O artista vivia sozinho, segundo o irmão. Ainda de acordo com a assessoria, as informações sobre o enterro não serão divulgadas para evitar aglomerações, recomendação de vários órgãos de saúde como prevenção à Covid-19. Antonio Carlos Moreira Pires nasceu em Ituaçu, no interior da Bahia, em 8 de julho de 1947. Moraes Moreira começou tocando sanfona de doze baixos em festas de São João e outros eventos na cidade. Na adolescência aprendeu a tocar violão, enquanto fazia curso de ciências em Caculé, na região sudoeste da Bahia, em 1967. Aos 19, ele foi para Salvador, onde começou a estudar no Seminário de Música da Universidade Federal da Bahia. Lá, ele conheceu seus futuros companheiros dos Novos Baianos, Luiz Galvão e Paulinho Boca de Cantor, além de Tom Zé. Em 1968, eles criaram o espetáculo que deu origem aos Novos Baianos, Desembarque dos Bichos depois do Dilúvio Universal. O grupo já tinha também a participação de Baby do Brasil (Baby Consuelo, na época) na voz e o guitarrista Pepeu Gomes quando foi participar do popular Festival da Música Popular Brasileira na TV em 1969, com a música “De Vera”, de Moreira e Galvão. No ano seguinte, o grupo lançou seu disco de estreia, “Ferro na boneca”. Mas a grande obra deles viria após uma visita de João Gilberto à casa em que eles moravam juntos, já no Rio de Janeiro. Em 1972, eles lançaram o álbum “Acabou chorare”, que consagrou os Novos Baianos. O trabalho juntava samba, rock, bossa nova, frevo, choro e baião. Com a regravação de “Brasil pandeiro”, de Assis Valente, além de “Preta pretinha”, “Mistério do planeta”, “A menina dança”, “Besta é tu” e a faixa título, todas de coautoria de Moraes Moreira, o álbum de 1972 é reconhecido como um dos melhores – senão o melhor – trabalho do pop brasileiro. Foi um passo adiante do tropicalismo de Caetano, Gil e Tom Zé – no abraço ao rock e à psicodelia hippie, na fusão de ritmos brasileiros, na recusa a seguir padrões no período mais duro da ditadura militar. O grupo foi morar em um sítio em Jacarepaguá, Zona Oeste do Rio, onde seguiam a cultura hippie dos EUA e da Europa em plena ditadura militar brasileira. Lançaram ainda três discos, cujo sucesso não tão grande começou a gerar desentendimentos. Ele ficou no grupo de 1969 até 1975, quando saiu em carreira solo. Carreira Solo Homenagem: Moreira morre aos 72 anos, no Rio de Janeiro Em 1976, já em carreira solo, ele se tornou o primeiro cantor de trio elétrico, ao subir no trio de Dodô e Osmar, e cantou a música “Pombo correio”, sucesso na época. Já em 1997, ele reuniu o grupo Novos Baianos para lançar o disco ao vivo Infinito Circular, com canções dos discos anteriores e algumas inéditas. Em 2007, Moraes Moreira publicou o livro A História dos Novos Baianos e Outros Versos, escrito em linguagem de cordel, que conta a história dos Novos Baianos. Em 2017, ele lançou outro livro, o "Poeta Não Tem Idade", com cerca de 60 textos sobre homenagens a Luiz Gonzaga, Machado de Assis, Gilberto Gil e muitos outros. Veja trecho da apresentação do cantor Moraes Moreira no carnaval de Salvador 2020 Nos últimos anos, Moraes Moreira se envolveu em shows de reunião dos Novos Baianos e também de trabalhos solo. O artista também se dedicou a trabalhos com o filho. No total, ele lançou mais de 60 discos entre a carreira solo, Novos Baianos, Trio Elétrico Dodô e Osmar, além da parceria com o guitarrista Pepeu Gomes. Em março deste ano ele fez a última postagem no Instagram falando sobre a quarentena que o mundo vive por causa da Covid-19. Última postagem de Moraes Moreira no instagram. Reprodução / Redes Sociais Fotos da carreira Capada divulgação do livro "Poeta Não Tem Idade", Divulgação Moraes Moreira foi homenageado no programa Som Brasil em 2009 TV Globo / Zé Paulo Cardeal Moraes Moreira interpreta o Visconde de Sabugosa no especial 'Pirlimpimpim', exibido originalmente pela Globo em 1982 Acervo TV Globo Moraes Moreira em apresentação no bairro do Rio Vermelho Camile Barreto/Saltur Pepeu Gomes e Moraes Moreira nas gravações da novela 'Tieta' (1989), da TV Globo Acervo TV Globo Davi Moraes e Moraes Moreira tocam durante programa Som Brasil em 2009 TV Globo / Zé Paulo Cardeal Veja mais notícias do estado no G1 Bahia.
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Moraes Moreira fundiu riqueza popular brasileira com efervescência da contracultura
Ele mudou o pop brasileiro com os Novos Baianos, foi pioneiro ao cantar em um trio elétrico e fez de suas composições pontes entre os ritmos brasileiros e a força do rock nos anos 70; relembre. Morre, aos 72 anos, o cantor e compositor Moraes Moreira Moraes Moreira mudou o pop brasileiro com suas composições, voz e violão, seja com os Novos Baianos ou em carreira solo. Sua música foi profundamente brasileira e também antenada com o rock de sua juventude. O músico morreu devido a um infarto agudo no miocárdio na manhã desta segunda-feira (13). Antonio Carlos Moreira Pires nasceu em Ituaçu, no interior da Bahia, em 8 de julho de 1947. Começou a tocar sanfona em festas locais e celebrações de São João ainda na adolescência. Moraes Moreira morre aos 72 anos, no Rio FOTOS da trajetória de Moraes Moreira VÍDEOS da trajetória de Moraes Moreira Em 1963, aos 16 anos, foi estudar em Caculé, cidade um pouco maior perto de Ituaçu, onde aprendeu a tocar violão. Aos 19, ele foi para Salvador, onde começou a estudar no Seminário de Música da Universidade Federal da Bahia. Lá, ele conheceu seus futuros companheiros dos Novos Baianos, Luiz Galvão e Paulinho Boca de Cantor, além de Tom Zé. Em 1968, eles criaram o espetáculo que deu origem aos Novos Baianos, Desembarque dos Bichos depois do Dilúvio Universal. Moraes Moreira canta Novos Baianos em São Paulo em 2016 Marcelo Brandt / G1 O grupo já tinha também a participação de Baby do Brasil (Baby Consuelo, na época) na voz e o guitarrista Pepeu Gomes quando foi participar do prestigiado Festival da Música Popular Brasileira em 1969, com a música “De Vera”, de Moreira e Galvão. No ano seguinte, o grupo lançou seu disco de estreia, “Ferro na boneca”. Mas a grande obra deles viria após uma visita de João Gilberto à casa em que eles moravam juntos, já no Rio de Janeiro. Em 1972 que eles lançaram um dos álbuns mais importantes da música brasileira, “Acabou chorare”, que consagrou os Novos Baianos e influencia inúmeras bandas e cantores brasileiros até hoje. “Acabou chorare” juntava samba, rock, bossa nova, frevo, choro e baião e sintetizava a explosão criativa do desbunde do final dos anos 60 e início dos 70 no mundo com a riqueza da música popular brasileira. Com a regravação de “Brasil pandeiro”, de Assis Valente, além de “Preta pretinha”, “Mistério do planeta”, “A menina dança”, “Besta é tu” e a faixa título, todas de coautoria de Moraes Moreira, o álbum de 1972 é reconhecido como um dos melhores – senão o melhor – trabalho do pop brasileiro. Foi um passo adiante do tropicalismo de Caetano, Gil e Tom Zé – no abraço ao rock e à psicodelia hippie, na fusão de ritmos brasileiros, na recusa a seguir padrões no período mais duro da ditadura militar. Novos Baianos e amigos em sítio no Rio de Janeiro, na década de 70 Divulgação O grupo foi morar em um sítio em Jacarepaguá, Zona Oeste do Rio, onde seguiam a cultura hippie dos EUA e da Europa em plena ditadura militar brasileira. Lançaram ainda três discos, cujo sucesso não tão grande começou a gerar desentendimentos. Carreira solo e voz no trio O grupo ainda deu a partida para carreiras solo de sucesso de seus membros. Em 1975, Moraes Moreira decide sair dos Novos Baianos. Ele começou uma parceria com o guitarrista Armandinho. Em 1976, ele se tornou o primeiro cantor de trio elétrico, ao subir no trio de Dodô e Osmar, e cantou a música “Pombo correio”, sucesso na época. Os trios já existiam, mas sem o acompanhamento de cantores. Em 1979, ele lançou o disco “Lá Vem o Brasil Descendo a Ladeira”, que incluía a musica “Santa fé”, trilha de abertura da novela “Roque santeiro”. A novela tinha sido censurada em 1975 pela ditadura militar, e seria exibida só dez anos depois. Sua presença no trio e seus trabalhos solo foram muito influentes na futura formação da chamada "axé music" em Salvador. Ele também se aproximou muito da música pernambucana ao longo da carreira. Moraes Moreira interpreta o Visconde de Sabugosa no especial 'Pirlimpimpim', exibido originalmente pela Globo em 1982 Acervo TV Globo Ele seguiu lançando álbuns solo com sucesso nos anos 80, mas já fora do auge criativo dos anos 1970. Em 1996, Moraes reuniu os Novos Baianos, e foi lançado o álbum ao vivo “Infinito Circular”, além de contar a história do grupo em formato de cordel. Moraes Moreira fala sobre amizade com o icônico Jackson do Pandeiro Em 2012, ele viajou pelo Brasil em uma turnê com seu filho, o músico Davi Moraes, e comemorou os 40 anos de "Acabou chorare". Nos últimos anos, Moraes Moreira se envolveu em shows de reunião dos Novos Baianos e a continuação de seus trabalhos solo. Pepeu Gomes e Moraes Moreira nas gravações da novela 'Tieta' (1989), da TV Globo Acervo TV Globo No dia 17 de março, ele escreveu seu último post no Instagram, com um cordel sobre a quarentena. Leia abaixo: “Oi pessoal estou aqui na Gávea entre minha casa e escritório que ficam próximos,cumprindo minha quarentena,tocando e escrevendo sem parar. Este Cordel nasceu na madrugada do dia 17, envio para apreciação de vocês .Boa sorte Quarentena (Moraes Moreira) Eu temo o coronavirus E zelo por minha vida Mas tenho medo de tiros Também de bala perdida, A nossa fé é vacina O professor que me ensina Será minha própria lida Assombra-me a pandemia Que agora domina o mundo Mas tenho uma garantia Não sou nenhum vagabundo, Porque todo cidadão Merece mas atenção O sentimento é profundo Eu não queria essa praga Que não é mais do Egito Não quero que ela traga O mal que sempre eu evito, Os males não são eternos Pois os recursos modernos Estão aí, acredito De quem será esse lucro Ou mesmo a teoria? Detesto falar de estrupo Eu gosto é de poesia, Mas creio na consciência E digo não a todo dia Eu tenho medo do excesso Que seja em qualquer sentido Mas também do retrocesso Que por aí escondido, As vezes é o que notamos Passar o que já passamos Jamais será esquecido Até aceito a polícia Mas quando muda de letra E se transforma em milícia Odeio essa mutreta, Pra combater o que alarma Só tenho mesmo uma arma Que é a minha caneta Com tanta coisa inda cismo…. Estão na ordem do dia Eu digo não ao machismo Também a misoginia, Tem outros que eu não aceito É o tal do preconceito E as sombras da hipocrisia As coisas já forem postas Mas prevalecem os relés Queremos sim ter respostas Sobre as nossas Marielles, Em meio a um mundo efêmero Não é só questão de gênero Nem de homens ou mulheres O que vale é o ser humano E sua dignidade Vivemos num mundo insano Queremos mais liberdade, Pra que tudo isso mude Certeza, ninguém se ilude Não tem tempo,nem.idade” Da esquerda para direita: Moraes Moreira, Bolacha e Paulo Roberto Figueiredo de Oliveira, o Paulinho Boca de Cantor, integrantes dos Novos Baianos, em um casarão abandonado em setembro de 1973, no km 28 da Rodovia Anhanguera, onde o grupo permaneceu instalado durante apresentações e gravação de disco na cidade de São Paulo Estadão Conteúdo/Arquivo Arthur Dapieve sobre Moraes Moreira: ‘Ele foi uma força criativa na música brasileira’
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Moraes Moreira morre aos 72 anos; veja fotos da carreira
Cantor e compositor morreu na madrugada desta segunda-feira (13). Pepeu Gomes e Moraes Moreira nas gravações da novela 'Tieta' (1989), da TV Globo Acervo TV Globo O músico Moraes Moreira durante apresentação com Pepeu Gomes no festival Rock in Rio II, realizado no estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro, em janeiro de 1991 Ana Carolina Fernandes/Estadão Conteúdo/Arquivo Moraes Moreira interpreta o Visconde de Sabugosa no especial 'Pirlimpimpim', exibido originalmente pela Globo em 1982 Acervo TV Globo Davi Moraes e Moraes Moreira tocam durante programa Som Brasil em 2009 TV Globo / Zé Paulo Cardeal Da esquerda para direita: Moraes Moreira, Bolacha e Paulo Roberto Figueiredo de Oliveira, o Paulinho Boca de Cantor, integrantes dos Novos Baianos, em um casarão abandonado em setembro de 1973, no km 28 da Rodovia Anhanguera, onde o grupo permaneceu instalado durante apresentações e gravação de disco na cidade de São Paulo Estadão Conteúdo/Arquivo Moraes Moreira canta Novos Baianos em São Paulo em abril de 2016 Marcelo Brandt / G1 Pai e filho, Moraes Moreira e Davi Moraes, se apresentam no último dia do carnaval do Recife, em 2014 Diego Moraes / G1 Moraes Moreira e Iza lançaram juntos o single 'Eu Sou O Carnaval', em 2018 Divulgação / Apple Moraes Moreira no carnaval de Salvador 2015 Mauro Zaniboni /Ag Haack Moraes Moreira foi homenageado no programa Som Brasil em 2009 TV Globo / Zé Paulo Cardeal Moraes Moreira durante apresentação com Pepeu Gomes (esq.) no Rock in Rio II, no Maracanã, no Rio, em janeiro de 1991 Ana Carolina Fernandes/Estadão Conteúdo/Arquivo Pepeu Gomese Moraes Moreira tocam com os Novos Baianos, no Palco Sunset do Rock in Rio 2013 Luciano Oliveira/G1 Novos Baianos se reencontraram para turnê 'Acabou chorare – Novos Baianos se encontram' em 2017 Mila Maluhy/ Divulgação Novos Baianos Divulgação Novos Baianos se reencontraram para turnê 'Acabou chorare – Novos Baianos se encontram' em 2017 André Carvalho/Ag Haack Moraes Moreira gravou 'Celebração' com Armandinho e Hamilton de Holanda em outubro de 2019 Gabriela Perez / Reprodução Silva e Moraes Moreira na estreia carioca do show 'Bloco do Silva' Luiz Franco / Divulgação Moraes Moreira foi homenageado no programa Som Brasil em 2009 TV Globo / Zé Paulo Cardeal Maria Gadu e Moraes Moreira no Prêmio da Música Brasileira 2018 Marcos Serra Lima/G1 Moraes Moreira canta Novos Baianos em São Paulo em abril de 2016 Marcelo Brandt / G1 Moraes Moreira e Davi Moraes fazem show juntos em Salvador Marcos Hermes/Divulgação Capa do álbum 'Ser tão', de Moraes Moreira, lançado em 2018 Divulgação / Selo Discobertas Capa do single 'I'm the captain of my soul', de Moraes Moreira Divulgação / Gravadora Discobertas Moraes Moreira e Zé Renato no estúdio, em foto divulgada em janeiro de 2018 Divulgação / Rodrigo Torrero
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VÍDEOS: Relembre a trajetória de Moraes Moreira
Cantor e compositor morreu na madrugada desta segunda-feira (13), aos 72 anos. Relembre apresentações no carnaval e outros momentos da carreira. Cantor e compositor morreu na madrugada desta segunda-feira (13), aos 72 anos. Relembre apresentações no carnaval e outros momentos da carreira.
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Moraes Moreira: veja repercussão da morte do cantor
Gilberto Gil, Maria Rita e Daniela Mercury lamentaram morte nesta segunda-feira (13). 'Moraes era meu grande amigo, meu amigo de todos os dias', afirmou Paulinho Boca. Moraes Moreira canta Novos Baianos em São Paulo Marcelo Brandt / G1 Artistas lamentaram a morte de Moraes Moreira nesta segunda-feira (13). O cantor e compositor foi encontrado morto em casa, no Rio de Janeiro, após sofrer um infarto agudo no miocárdio. Relembre carreira em FOTOS Gilberto Gil, Lulu Santos e Nando Reis estão entre os músicos que já fizeram homenagens nas redes sociais ao cantor. Maria Rita foi casada com Davi Moraes, filho do cantor, e escreveu um texto no Instagram sobre o ex-sogro e a relação dele com a neta. "Minha admiração vem de berço. Que talento, que facilidade em compor e escrever – e aquele violão? e os cordéis, que o levaram à academia brasileira?", compartilhou a cantora. Paulinho Boca, músico e fundador dos Novos Baianos "Nos últimos tempos, Moraes era o meu grande amigo, meu amigo de todos os dias. As nossas ligações eram para falar de trabalho ou para dar muito risada de tudo, da vida, da nossa história", afirmou em áudio enviado ao G1. Moraes Moreira e Paulinho Boca agitaram público no bairro do Rio Vermelho Camile Barreto/Saltur "É importante que a gente fale só desse amor, dessa coisa que começou há 50 anos, quando eu encontrei pela primeira vez ele, Galvão, e a gente pensou que juntos poderíamos fazer alguma coisa (…) O que é importante é que essa música que a gente começou a fazer há 50 anos está aí viva e o Moraes Moreira era o grande timoneiro: aquele violão que não existe nada igual, todos os artistas brasileiros que tocam violão sabem da capacidade que ele tinha de fazer um show voz e violão, botar todo mundo para dançar; as composições contando a vida, aquilo que a gente estava vivendo." "Além de muito triste, eu tenho certeza absoluta que todo o Brasil vai reverenciar para sempre a arte, e a vida desse grande compositor, desse grande homem, desse grande baiano, Moraes Moreira". Baby do Brasil, cantora e parceira no Novos Baianos Baby do Brasil lamenta morte de Moraes Moreira Reprodução/TV Globo "É a vida né, galera? A vida é uma ida e sem essa de pressa de chegar, e ele foi. Foi o primeiro do grupo a seguir para a eternidade. Que o senhor o tenha, que toda a sua família, seus filhos, e todos aqueles que conviveram com ele, produção, músicos, amigos, sejam consolados pelo Espírito Santo", afirmou em vídeo enviado à TV Globo. Gilberto Gil, cantor Initial plugin text Daniela Mercury, cantora Initial plugin text Djavan, cantor Initial plugin text Elba Ramalho, cantora Initial plugin text Fafá de Belém, cantora "Moraes foi o cara que embalou a minha geração, nos anos 70, trazendo alegria, delicadeza, frescor e liberdade. Os Novos Baianos foram e, são, o som de toda uma geração. Muito triste com a partida dele, muito triste. O país ficará mais triste", afirmou em vídeo enviado à TV Globo. Gal Costa, cantora Initial plugin text Geraldo Azevedo, cantor Initial plugin text Lulu Santos, cantor Initial plugin text Margareth Menezes, cantora Initial plugin text Maria Rita, cantora Initial plugin text Nando Reis, cantor Initial plugin text Paulo Miklos, músico Initial plugin text Zico, ex-jogador e técnico de futebol "Conheci o Moares muito cedo, ainda nos Novos Baianos, e lógico que a gente fica desnorteado quando existe uma perda desse tipo. Vai fazer muita falta para música e, sem dúvida, foi um dos grandes rubro-negros da minha geração. Que a obra dele continue firme, porque ele foi um dos grandes artistas da música no nosso país", afirmou em vídeo enviado à TV Globo. ACM Neto, prefeito de Salvador “Sem nenhuma dúvida, Moraes Moreira foi de um dos mais brilhantes e completos artistas baianos, criador de grandes clássicos da Música Popular Brasileira. Com sua presença marcante na história do Carnaval da Bahia, ele projetou com elegância a maior festa popular do planeta para cada esquina do Brasil e do mundo”. ACM Neto disse também que Moraes Moreira deixa uma obra que serve de referência para todas as gerações. “A Bahia perdeu um artista que sempre será sempre lembrado não somente pelo que fez para a projeção do nosso Carnaval, mas, sobretudo, pela consistência de seu trabalho autoral. Aos amigos e familiares de Moraes Moreira, os meus profundos sentimentos”, concluiu o prefeito. Alice Wegmann, atriz Initial plugin text Ana Caetano, cantora Initial plugin text André Abujamra, ator e músico Initial plugin text Bebel Gilberto, cantora Initial plugin text Beto Lee, músico Initial plugin text Branco Mello, músico Initial plugin text Buchecha, cantor Initial plugin text Clube de Regatas do Flamengo Initial plugin text Carlinhos Brown, cantor Initial plugin text Casuarina Initial plugin text China Ina, músico e apresentador Initial plugin text Claudia Leitte, cantora Initial plugin text Duani, músico e produtor Initial plugin text Esporte Clube Bahia Initial plugin text Evandro Mesquita, músico e ator Initial plugin text Hamilton de Holanda, músico Initial plugin text João Barone, músico Initial plugin text João Gordo, cantor Initial plugin text Lucas Santtana, cantor Initial plugin text Illy, cantora Initial plugin text Letrux, cantora Initial plugin text Marcelo Costa, músico Initial plugin text Marcelo Mariano, músico Initial plugin text Márcia Castro, cantora Initial plugin text Mariana Aydar, cantora Initial plugin text Marina Lima, cantora Initial plugin text Matheus Nachtergaele, ator Initial plugin text Max Vianna, músico Initial plugin text Milton Guedes, músico Initial plugin text Monobloco Initial plugin text Mouhamed Harfouch, ator Initial plugin text Nação Zumbi Initial plugin text Nathalia Dill, atriz Initial plugin text Paralamas do Sucesso Initial plugin text Paulinho Moska, cantor Initial plugin text Péricles Cavalcanti, músico Initial plugin text Phill Veras, cantor Initial plugin text Rui Costa, governador da Bahia "Com muito pesar, recebi a notícia do falecimento do cantor e compositor baiano Moraes Moreira. Ícone de várias gerações, Moraes marcou a vida do país em momentos de alegria e reflexão. Ao lado dos parceiros dos Novos Baianos, transformou a MPB, renovando o samba e outros ritmos. Como primeiro cantor de trio, ensinou ao mundo como carregar multidões e espalhar a felicidade. E, para coroar, é um dos criadores de um dos hinos do Carnaval baiano: Chame Gente. E isso é só uma pequena amostra de suas realizações, ao longo de cinco décadas de carreira. Sua história nos fará sentir muita falta do seu talento, da sua sensibilidade e da cumplicidade com o público. Meus sentimentos aos familiares, amigos e fãs desse grande mestre". Silva, cantor Initial plugin text Titãs Initial plugin text Tulipa Ruiz, cantora Initial plugin text
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Moraes Moreira fez cordel sobre a quarentena em seu último post no Instagram; leia
Ele disse que estava de quarentena entre sua casa e o escritório no Rio: 'O que vale é o ser humano, e sua dignidade. Vivemos num mundo insano'. Ele morreu de infarto nesta segunda (13). Moraes Moreira foi homenageado no programa Som Brasil em 2009 TV Globo / Zé Paulo Cardeal No dia 17 de março, Moraes Moreira escreveu seu último post no Instagram, com um cordel sobre a quarentena. Ele morreu aos 72 anos, nesta segunda-feira (13), no Rio. A causa da morte foi um infarto, na marugada desta segunda-feira (13). Leia abaixo: “Oi pessoal estou aqui na Gávea entre minha casa e escritório que ficam próximos,cumprindo minha quarentena,tocando e escrevendo sem parar. Este Cordel nasceu na madrugada do dia 17, envio para apreciação de vocês .Boa sorte Quarentena (Moraes Moreira) Eu temo o coronavirus E zelo por minha vida Mas tenho medo de tiros Também de bala perdida, A nossa fé é vacina O professor que me ensina Será minha própria lida Assombra-me a pandemia Que agora domina o mundo Mas tenho uma garantia Não sou nenhum vagabundo, Porque todo cidadão Merece mas atenção O sentimento é profundo Eu não queria essa praga Que não é mais do Egito Não quero que ela traga O mal que sempre eu evito, Os males não são eternos Pois os recursos modernos Estão aí, acredito De quem será esse lucro Ou mesmo a teoria? Detesto falar de estrupo Eu gosto é de poesia, Mas creio na consciência E digo não a todo dia Eu tenho medo do excesso Que seja em qualquer sentido Mas também do retrocesso Que por aí escondido, As vezes é o que notamos Passar o que já passamos Jamais será esquecido Até aceito a polícia Mas quando muda de letra E se transforma em milícia Odeio essa mutreta, Pra combater o que alarma Só tenho mesmo uma arma Que é a minha caneta Com tanta coisa inda cismo…. Estão na ordem do dia Eu digo não ao machismo Também a misoginia, Tem outros que eu não aceito É o tal do preconceito E as sombras da hipocrisia As coisas já forem postas Mas prevalecem os relés Queremos sim ter respostas Sobre as nossas Marielles, Em meio a um mundo efêmero Não é só questão de gênero Nem de homens ou mulheres O que vale é o ser humano E sua dignidade Vivemos num mundo insano Queremos mais liberdade, Pra que tudo isso mude Certeza, ninguém se ilude Não tem tempo, nem idade” Última postagem de Moraes Moreira no instagram. Reprodução / Redes Sociais
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Moraes Moreira, o alquimista novo baiano que deu frescor à MPB com mistura pop brasileira
Compositor deixa obra grandiosa e relevante, inclusive na discografia solo iniciada em 1975 com gravações que apontaram os caminhos da 'axé music' dos anos 1980. ♪ OBITUÁRIO – É justo dimensionar Antonio Carlos Moraes Pires (8 de julho de 1947 – 13 de abril de 2020) como um dos maiores nomes da música brasileira. Moraes Moreira – como ficou conhecido o cantor, compositor e violonista baiano nascido na interiorana cidade de Ituaçu (BA) – pode nunca ter sido incluído no panteão dos ícones da MPB, mas deu grande contribuição para a música popular do Brasil. Moraes Moreira morreu na madrugada desta segunda-feira, 13 de abril. Tinha 72 anos. Mas não aparentava a idade com que saiu de cena, dormindo, vítima de infarto. Porque Moraes Moreira foi desde sempre um eterno novo baiano que fazia da juventude uma marca dos sons que mexeu e remexeu como alquimista, misturando a placidez refinada do violão com a eletricidade das guitarras. Moraes Moreira foi um novo baiano bossa nova, fã do conterrâneo João Gilberto (1931 – 2019), cantor e violonista fundamental para a formatação da mistura pop brasileira que deu projeção ao som dos Novos Baianos, o grupo que Moraes formara em 1969 com Luiz Galvão (o poeta letrista, parceiro de Moraes em standards de 1972 como A menina dança e Preta pretinha), Paulinho Boca de Cantor, Baby Consuelo e Pepeu Gomes. Antes de João, o grupo Novos Baianos fazia rock psicodélico sob a benção tropicalista, como ficou nítido no álbum inicial É ferro na boneca! (1970). Depois de João, que visitou os músicos na comunidade em que os Novos Baianos viviam sob os libertários mandamentos do universo hippie, a luz se acendeu e o grupo entrou para a história a partir do icônico segundo álbum, Acabou chorare (1972), amostra perfeita do frescor pop com que Moraes e Cia. misturaram rock, samba, choro e bossa nova com brasilidade e eletricidade jovial. Capa do primeiro álbum solo do artista, 'Moraes Moreira', lançado em 1975 Divulgação Se a obra de Moraes Moreira estivesse restrita ao repertório dos Novos Baianos, grupo com o qual o cantor ainda fez os álbuns Novos Baianos F. C. (1973) e Novos Baianos (1974) antes de deixar a banda em 1974 para seguir carreira solo iniciada em 1975, essa obra já lhe valeria lugar de honra no panteão da música brasileira. Só que Moraes Moreira construiu discografia vigorosa fora do grupo, dando voz a um cancioneiro de grande efervescência rítmica que apontou na década de 1970 os caminhos que, nos anos 1980, dariam na música afro-pop-baiana rotulada como axé music – cancioneiro autoral encerrado na madrugada de 17 de março com a composição do cordel Quarentena, criado sob inspiração do isolamento social adotado no mundo para enfrentamento da epidemia do coronavírus. Após os álbuns Moraes Moreira (1975), Cara e coração (1977) e Alto falante (1978), o artista atingiu ponto de excelência na carreira individual com o quarto álbum solo, Lá vem o Brasil descendo a ladeira (1979), batizado com o nome do samba que Moraes compusera com Pepeu Gomes. De espírito carnavalesco, esse disco amplificou o som elétrico de Moraes e deu o tom da festa dos trios de Salvador (BA) com músicas como Chão na praça, parceria de Moraes com Fausto Nilo. Moraes Moreira na capa do single 'I'm the captain of my soul', de 2018 Divulgação Fornecedor de hits da fase tropical de Gal Costa, como a marcha-frevo junina Festa do interior (Moraes Moreira e Abel Silva, 1981) e o frevo Bloco do prazer (parceria com Fausto Nilo lançada em 1979, mas popularizada por Gal em 1982), Moraes manteve o pique como compositor na criação dos repertórios de álbuns como Bazar brasileiro (1980), Moraes Moreira (1981), Coisa acesa (1982), Pintando o oito (1983) e Mancha de dendê não sai (1984), todos apostando na alquimia rítmica. Com liberdade para misturar sons e ritmos, Moraes se permitiu fazer metalinguística canção pop romântica para tocar no rádio, Sintonia (Moraes Moreira, Fred Góes e Zeca Barreto), hit do álbum sintomaticamente intitulado Mestiço é isso (gravado em 1986 e lançado em janeiro de 1987). Sete anos depois, Moraes arregimentou o trombonista e maestro Vittor Santos para inserir a brasilidade baiana dentro do universo da música erudita no álbum O Brasil tem conserto (1994), item diferenciado na discografia desse artista que, quatro anos antes, se reunira com Pepeu Gomes para gravação de estupendo álbum editado em 1990 e seguido por disco ao vivo lançado em 1991 com registro de show da dupla no Japão. Moraes Moreira em imagem dos anos 1970, década em que ganhou projeção na música brasileira Divulgação Se o cantor perdeu o viço vocal por conta dos efeitos do tempo, o compositor permaneceu inquieto, elétrico, quase sempre inspirado, mesmo longe das paradas de sucesso. A revolta do ritmos, álbum de 2012, é especialmente relevante na década final da obra de Moraes, que se juntou com o filho guitarrista, Davi Moraes, no álbum Nossa parceria (2015), antes de se reunir com os Novos Baianos para show que saiu em turnê pelo Brasil e ficou perpetuado no álbum e DVD Acabou chorare – Novos Baianos se encontram (2017). Alquimista que nunca perdeu o gosto pela mistura brasileira e pela experimentação, simbolizada pela investida no cordel no derradeiro álbum Ser tão (2018), Moraes Moreira deixa obra ainda a ser explorada e a ser corretamente dimensionada tanto pela quantidade quanto, sobretudo, pela alta qualidade. Obra que tornou Antonio Carlos Moraes Pires um dos maiores nomes da música brasileira.
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